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Proibir celulares nas escolas: pais são o verdadeiro obstáculo ao sucesso dos filhos.

Professora coloca celulares em caixa plástica na sala de aula enquanto aluno escreve em caderno ao lado.

A campainha toca e o corredor se acende. Não com vozes, não com risadas. Com telas azuis. Dezenas de crianças caminham ombro a ombro, olhos grudados no TikTok, desviando umas das outras como fantasmas. Um professor faz uma pergunta, ninguém ouve. Lá no fundo, uma menina enfia o celular dentro da manga, com os dedos ainda rolando a tela por baixo da carteira. A regra diz “sem celulares”. A realidade diz “boa sorte com isso”.

Do lado de fora do portão, os pais esperam, também com o celular na mão. Uma mãe reclama que as notas do filho estão caindo e, em seguida, entrega o aparelho para ele “não ficar entediado” no caminho para casa. No dia seguinte, ela assina uma petição contra uma proibição mais rígida de smartphones na escola.

Todo mundo culpa o algoritmo. Quase ninguém se olha no espelho.

Quando a sala de aula perde para a notificação

Entre em qualquer escola de ensino fundamental II às 8h15 e o padrão te atinge rápido. Cabeças baixas, mochilas abertas, dedos voando. As aulas tecnicamente começam em quinze minutos, e mesmo assim metade das crianças já foi embora emocionalmente, puxada para o buraco negro dos smartphones.

Os professores tentam dar partida no dia, mas dá para ver no rosto deles: eles não competem mais com o tédio, e sim com um universo curado, personalizado, de doses de dopamina. Uma aula de história versus um meme no timing perfeito. Um problema de matemática versus uma sequência no Snapchat. Não é uma luta justa.

Em uma turma de 7º ano que visitei, a professora tinha uma regra clara: celulares desligados e dentro das mochilas. Em dez minutos, três alunos já estavam com o aparelho meio puxado para fora, escondido sob a carteira, iluminando o rosto por baixo.

Depois, no intervalo, a mesma professora suspirou na sala dos professores. Ela me mostrou uma mensagem de um pai: “Por favor, permita que minha filha mantenha o celular ligado durante sua aula. Preciso conseguir falar com ela imediatamente.” Outro reclamou quando a escola pediu que os alunos colocassem os celulares em uma bolsa lacrada, chamando isso de “violação da liberdade pessoal”.

A ironia? Esses mesmos pais eram os mais barulhentos sobre notas em queda e falta de foco.

As escolas muitas vezes são retratadas como as vilãs ou como dinossauros, lentos demais para se adaptar. No entanto, a maioria dos professores com quem converso está implorando por uma linha de base simples: uma proibição real, aplicável, de smartphones dentro das salas de aula.

O obstáculo raramente vem das crianças. No começo, elas resmungam; depois, a maioria se adapta. A resistência de verdade vem dos pais que querem acesso constante, que temem emergências, que se culpam se seu filho for “o único sem”.

Então a escola manda mais um comunicado, o diretor faz mais uma reunião, e a regra acaba cheia de brechas. A mensagem escondida que as crianças recebem é cristalina: o mundo adulto não está unido nisso. E quando os adultos brigam, o algoritmo vence.

Pais: o elo faltante e desconfortável no sucesso escolar

Vamos falar da cena que se repete silenciosamente em tantas casas. A criança volta da escola, joga a mochila, se joga no sofá. “Estou cansado(a)”. Um pai ou mãe, já exausto do trabalho, escolhe o caminho de menor resistência e entrega o celular. Silêncio. Paz. Trégua.

Esse pequeno gesto, repetido dia após dia, reprograma a atenção em silêncio. A lição de casa que poderia levar trinta minutos agora se estica para duas horas bagunçadas, distraídas. O adulto perde a paciência, a criança se sente criticada, e o celular vira ao mesmo tempo vilão e cobertor de conforto. Ninguém ganha.

Lembro de um pai, Luís, que me disse com orgulho que sua filha de 13 anos conseguia “fazer várias coisas ao mesmo tempo como uma profissional”. Ela fazia a lição com o smartphone em cima da mesa, apitando a cada poucos segundos, e o Spotify estourando ao fundo. Ele jurava que isso a deixava “mais eficiente” e “adaptada ao mundo moderno”.

Quando as notas dela despencaram, o professor de matemática mostrou uma estatística simples: nas aulas dele, alunos que mantinham o celular dentro da mochila durante a lição tiravam, em média, 3 pontos a mais (de 20) do que aqueles que deixavam o aparelho sobre a mesa. Esse mesmo pai explodiu quando a escola propôs uma proibição total de smartphones durante o horário escolar. “Vocês não entendem esta geração”, ele retrucou.

A verdade era mais dura: ele também não queria mudar os próprios hábitos.

Muitos pais acreditam que a responsabilidade principal está dentro dos muros da escola. Professores melhores, métodos melhores, supervisão melhor. Tudo isso é válido. Mas uma criança que passa cinco ou seis horas por dia no celular chega à sala de aula com o cérebro fragmentado, com a capacidade de atenção estilhaçada em microblocos e com uma coceira permanente por estímulo.

Nenhuma escola, por mais inovadora, consegue competir com isso. O primeiro filtro para o sucesso escolar não é o horário. É a tela inicial. Quando pais defendem acesso constante a smartphones “pela segurança” ou “pela vida social”, às vezes confundem amor com rendição.

Sejamos honestos: ninguém lê, todos os dias, a pesquisa completa sobre tempo de tela e atenção. Os pais agem por instinto, culpa, cansaço. E é exatamente por isso que acabam se tornando, sem querer, o principal obstáculo ao sucesso que dizem querer.

Da proibição à aliança: como pais podem parar de sabotar os próprios filhos

Há uma atitude que muda tudo: tratar o smartphone como uma ferramenta elétrica, não como um brinquedo. Uma furadeira tem lugar, regras e momentos em que simplesmente não é usada. Com o celular é a mesma coisa. Um método concreto que muitas famílias adotam discretamente funciona assim: uma “estação de celulares” física em casa, onde todos os aparelhos dormem - inclusive os dos pais.

Durante o horário da lição, todos os celulares ficam ali, virados para baixo. Sem exceções. Não “só se não houver emergência”, não “só para música”. Apenas um ritual calmo e previsível. A criança aprende uma habilidade radical: terminar uma tarefa sem ser interrompida por um ping. Só essa habilidade pode mudar uma vida acadêmica.

É claro que é aqui que dói. Pais dizem: “Preciso do celular para o trabalho”, ou “Ela vai se sentir punida”, ou “Ele vai me odiar”. O peso emocional é grande. Muitos adultos também ficam ansiosos quando ficam separados da tela por mais do que alguns minutos.

O erro comum é tentar consertar a criança mantendo intactos os hábitos do adulto. Crianças veem tudo. Um pai que rola o feed no jantar, mas exige “sem celular à mesa”, envia uma mensagem dividida. A empatia começa ao admitir em voz alta: “Isso é difícil para mim também. Eu também sou viciado(a). Vamos tentar juntos.” Essa vulnerabilidade compartilhada muitas vezes funciona melhor do que qualquer punição.

Quando escolas têm coragem de propor proibições rígidas, elas precisam de apoio em casa - não de uma revolta no grupo de WhatsApp de pais. Uma professora me disse algo que ficou comigo:

“Smartphones não são o inimigo. Nossa falta de coragem diante deles é.”

  • Combine horários claros sem celular (manhãs antes da escola, lição de casa, refeições, hora de dormir).
  • Apoie publicamente a proibição da escola, mesmo que você tenha dúvidas em privado.
  • Leve todos os carregadores para uma área comum à noite, inclusive os celulares dos pais.
  • Fale abertamente sobre algoritmos e lucro, não apenas sobre “regras” e “castigos”.
  • Comemore pequenas vitórias: uma noite de lição feita sem checar notificações.

Quando os adultos finalmente escolhem um lado

Se reduzíssemos o debate ao osso, ficaria assim: o cérebro de uma criança, ainda em construção, é jogado diariamente em um cassino de estímulos infinitos, enquanto os adultos ao redor discutem de quem é o direito de apertar pausa. Smartphones na escola são menos um problema tecnológico e mais um teste de firmeza coletiva.

Alguns países e regiões já estão caminhando para proibições rígidas de celulares durante o horário escolar, e algo fascinante acontece onde essas proibições são realmente aplicadas. As crianças reclamam, depois se ajustam. O drama sobe por uma semana e, em seguida, cai. As conversas voltam aos poucos para o recreio. Professores recuperam fatias inteiras de atenção que achavam perdidas para sempre.

A peça que falta, quase sempre, é a frente adulta em casa. Quando as famílias entram no jogo, a proibição vira uma extensão natural de uma regra compartilhada: escola é para aprender, em casa há tempo online estruturado, e o sono é sagrado. Quando as famílias lutam contra isso, a proibição vira um jogo de gato e rato, cheio de aparelhos contrabandeados, “ligações de emergência” falsas e aplicativos escondidos.

Todos nós já passamos por aquele momento em que seu filho te olha com os olhos marejados e diz: “Mas todo mundo tem celular.” É preciso uma calma quase sobre-humana para manter a linha e dizer: “Eu sei. E nós vamos fazer diferente.” Essa frase silenciosa pode parecer solitária.

Mas é exatamente nessa solidão que nasce algo poderoso: uma criança que aprende que limites podem ser cuidado, que frustração é suportável, que foco não é uma arte perdida. O debate sobre proibir smartphones nas escolas vai continuar pegando fogo no nível político. Especialistas vão discutir, lobistas vão pressionar, plataformas vão se reinventar.

No chão da vida real, porém, a mudança de verdade vai acontecer em cozinhas e salas de estar, uma notificação de cada vez. No dia em que pais passarem a se ver não como vítimas do smartphone, mas como guardiões da atenção, a balança de poder muda. Não contra a tecnologia. A favor dos filhos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Regras unificadas Proibições na escola só funcionam quando as famílias adotam limites correspondentes em casa Dá ao seu filho um ambiente coerente e previsível para focar e aprender
Celular como ferramenta “Estação de celulares” clara, horários fixos e rituais compartilhados para adultos e crianças Reduz conflitos diários e constrói hábitos de atenção mais fortes
Exemplo primeiro Pais mudam o próprio comportamento de tela em vez de mirar apenas nas crianças Aumenta credibilidade, cooperação e impacto de longo prazo nos resultados escolares

FAQ:

  • Pergunta 1: Uma proibição total de smartphones na escola não vai colocar meu filho em desvantagem social?
    Laços sociais não desaparecem sem celulares; eles apenas voltam para a vida real. As crianças ainda conversam, brincam, discutem e riem. A verdadeira desvantagem aparece quando a criança não consegue se concentrar ou lidar com frustrações porque está acostumada a pegar uma tela sempre que algo fica desconfortável.

  • Pergunta 2: E as emergências, se meu filho não puder usar o celular na aula?
    Antes dos smartphones, escolas lidavam com emergências todos os dias pelo telefone da secretaria. Esse sistema ainda existe. Você sempre pode ligar para a escola, e a escola sempre pode falar com seu filho. Acesso direto constante não é segurança; é vigilância permanente.

  • Pergunta 3: Isso não é apenas tecnofobia de adultos que não entendem o mundo digital?
    Ser crítico ao acesso constante não significa rejeitar tecnologia. Significa reconhecer que o cérebro de uma criança de 12 anos não foi feito para resistir sozinho a armadilhas de atenção de bilhões de reais. A ideia não é banir tecnologia da vida, e sim estruturar quando e como ela entra no dia escolar.

  • Pergunta 4: Meu filho precisa de um smartphone para a lição e plataformas online. Qual é a alternativa?
    Use um computador ou tablet em um espaço compartilhado para tarefas escolares e depois devolva os aparelhos ao mesmo local visível. Você separa “modo trabalho” de “modo rolagem”, o que ajuda seu filho a viver o celular como ferramenta, não como uma extensão permanente da mão.

  • Pergunta 5: E se eu já sinto que as coisas estão fora de controle em casa?
    Comece pequeno. Uma hora por noite sem celular para todo mundo - pais incluídos. Sem discursos, só uma regra simples. Quando isso virar normal, estenda para o horário da lição ou para as manhãs antes da escola. A mudança não vem do plano perfeito. Vem do primeiro passo imperfeito, um pouco assustador.

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