Naquela noite de terça-feira que já parecia longa demais, Emma estava sentada de frente para sua terapeuta, girando a aliança como se fosse um botão capaz de abaixar o ruído na cabeça. Ela tinha ensaiado o que diria no carro: a crítica constante, o nó no estômago quando a chave do marido girava na fechadura, o jeito como ela tinha parado de rir sem nem perceber.
A terapeuta ouviu, assentiu e então disse, quase com delicadeza: “Parece difícil. Mas casamento dá trabalho. Talvez você devesse ficar mais um pouco e tentar ajustar suas expectativas.”
Emma sentiu algo frio atravessá-la.
Ela era o problema por querer sair, ou o conselho simplesmente era errado para a vida dela?
Quando “fique e trabalhe nisso” vira uma armadilha
Existe um roteiro silencioso que muitos terapeutas absorvem muito antes de você entrar no consultório: casamento é sagrado, divórcio é último recurso, ficar quase sempre é melhor do que ir embora.
Então você acaba sentada naquele sofá sendo conduzida, de novo e de novo, a “fazer dar certo”, mesmo quando seu corpo está gritando que tem algo profundamente errado.
A terapeuta não convive com as portas batidas, os castigos de silêncio, o jeito como seu sistema nervoso dispara a cada notificação.
Ela vê um problema de relacionamento numa linha do tempo de 50 minutos.
Você vive dentro dos estilhaços 24/7.
Pense no Mark, 41 anos, que passou três anos em terapia de casal com a esposa. Toda sessão voltava aos mesmos temas: comunicação, feridas da infância, aprender a “assumir sua parte”.
No papel, parecia promissor. Tinha folhas de tarefas, livros para ler, um calendário de “noite de encontro”.
Fora do papel, a esposa ainda o xingava quando estava com raiva, checava o celular dele rotineiramente e, uma vez, trancou a casa quando ele chegou dez minutos atrasado.
A terapeuta deles continuava incentivando “compaixão” e “manter curiosidade sobre as reações dela”.
Mark ficou até parar na emergência com dor no peito que não era infarto. Era pânico.
Muitos terapeutas são treinados para ver conflito como um quebra-cabeça a ser resolvido, não como uma linha que já foi ultrapassada.
Esse modelo funciona lindamente quando duas pessoas são emocionalmente seguras, mesmo que estejam bagunçadas ou travadas. Ele falha de forma brutal quando controle, desprezo ou negligência emocional estão no centro do casamento.
Um terapeuta focado em salvar o relacionamento pode não enxergar a realidade de como esse relacionamento está, aos poucos, quebrando você.
Ele pode supervalorizar resistência e subvalorizar seu senso básico de segurança e dignidade.
Não porque seja cruel. Mas porque a lente dele não é a sua vida.
Como perceber quando o conselho profissional não está te servindo
Um movimento prático muda tudo: comece a tratar as palavras do seu terapeuta como dados, não como mandamentos.
Depois de cada sessão, anote o que ele sugeriu e como seu corpo reagiu. Você sentiu um pequeno alívio, ou seu estômago virou como se tivessem mandado você voltar para dentro de uma sala em chamas?
Observe os padrões por algumas semanas.
Se o conselho é sempre sobre como você pode tolerar mais, ajustar mais, “entender” mais, enquanto as ações do seu parceiro quase não mudam, isso não é crescimento.
Isso é treinamento para você desaparecer.
Um erro comum é pensar: “Ele é o especialista, então deve conhecer meu casamento melhor do que eu.”
Você começa a editar sua própria realidade para caber no modelo dele. Minimiza as piadas cruéis, a manipulação financeira, o jeito como você chora no banho para que as crianças não ouçam.
Você diz a si mesma que está exagerando, que é sensível demais, que não é comprometida o bastante.
Todo mundo já passou por isso: aquele momento em que alguém com um diploma faz você duvidar da própria experiência vivida.
Às vezes, o que parece “trabalhar no casamento” é, na verdade, você aprendendo a tolerar o que um dia jurou que nunca toleraria.
“Percebi que eu estava pagando alguém para me ajudar a ficar numa vida que estava matando minha alegria aos poucos”, um leitor me escreveu. “Depois que eu vi isso, não consegui mais desver.”
- Sinal vermelho 1: Você sai das sessões se sentindo menor, culpada ou envergonhada quase sempre.
- Sinal vermelho 2: Seu terapeuta raramente pergunta diretamente sobre segurança, poder ou controle no relacionamento.
- Sinal vermelho 3: O foco costuma ser “consertar a comunicação”, enquanto insultos, gelo ou intimidação são deixados de lado.
- Sinal vermelho 4: Você sente que precisa defender sua vontade de ir embora mais do que suas razões para ficar.
- Sinal vermelho 5: Seu corpo está desmoronando: insônia, ansiedade crônica, exaustão constante… mas o conselho principal é “ter paciência”.
Se dando permissão para questionar o terapeuta, não só o casamento
Existe um teste simples que você pode tentar esta semana.
Pergunte ao seu terapeuta, de forma clara e calma: “Se nada no comportamento do meu parceiro mudasse no próximo ano, você ainda acharia que ficar é uma escolha saudável para mim?”
E então fique em silêncio.
Ouça não só as palavras, mas a rapidez com que ele corre para resgatar o relacionamento na resposta.
Um terapeuta com os pés no chão volta para o seu bem-estar. Um terapeuta enviesado volta para a instituição do casamento.
Outro passo: busque uma segunda opinião profissional sem dizer ao novo terapeuta “o que o anterior falou”.
Descreva, em linguagem simples, como é a vida em casa numa semana típica. Sem filtros, sem jargões terapêuticos - apenas o que realmente acontece.
Pergunte diretamente: “Se eu fosse sua irmã ou sua melhor amiga, com o que você se preocuparia neste casamento?”
Vamos ser honestos: ninguém faz isso todos os dias, mas uma ou duas conversas brutalmente honestas como essa podem recalibrar sua bússola.
Você não está procurando alguém que te diga para se divorciar. Você está procurando alguém que enxergue você, e não só o anel no seu dedo.
Você tem permissão para superar conselhos que um dia pareceram certos para você.
- Pergunte sobre a visão dele: “Você vê o divórcio como um fracasso ou às vezes como uma decisão saudável?”
- Observe a nuance: Ele diferencia casamentos difíceis porém respeitosos daqueles com padrões de controle ou crueldade?
- Confie no seu corpo: Você se sente emocionalmente mais segura depois de falar com ele, mesmo encarando verdades dolorosas?
- Proteja sua história: Se você se sente interrompida, minimizada ou sutilmente culpabilizada, pode encerrar a terapia - sem discurso grandioso.
- Crie âncoras: Mantenha um registro privado dos seus sentimentos e experiências em casa. Esse histórico costuma ser mais claro do que qualquer sessão isolada.
Quando ficar machuca mais do que ir embora, mesmo que ninguém ao redor veja
Existe um motivo para tanta gente ficar tempo demais: sair de um casamento raramente parece “razoável” por fora.
Amigos veem sorrisos no Instagram e viagens compartilhadas. Família vê o financiamento, a agenda das crianças, o cartão de Natal conjunto.
Seu terapeuta pode ver dois adultos capazes de conversar educadamente por 50 minutos.
O que eles não veem é o olhar morto no espelho quando você escova os dentes à meia-noite, ou o acordo privado que você fez consigo mesma: “Se ainda estiver assim quando as crianças forem maiores, eu vou embora.”
Às vezes a verdadeira virada não é sair hoje. É finalmente se permitir admitir que ficar a qualquer custo já não é o padrão-ouro.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Terapeutas têm pontos cegos | A formação muitas vezes prioriza salvar relacionamentos em vez de proteger indivíduos | Ajuda você a parar de confiar automaticamente em conselhos que ignoram sua realidade vivida |
| Seu corpo é dado | Sintomas físicos e apreensão antes/depois das sessões podem sinalizar uma orientação desalinhada | Te dá uma bússola concreta e pessoal além do “o especialista disse” |
| Você pode questionar | Buscar uma segunda opinião ou trocar de terapeuta é um passo válido e responsável | Restaura a sensação de agência nas decisões sobre seu casamento e seu futuro |
FAQ:
- Pergunta 1: E se meu terapeuta continuar me dizendo para “trabalhar em mim mesma” em vez de abordar o comportamento do meu cônjuge?
Resposta 1: Trabalhar em si é valioso, mas se seus esforços virarem um escudo que protege seu parceiro de responsabilização, o equilíbrio está errado. Você pode dizer: “Eu estou disposta a trabalhar nos meus padrões, mas também preciso que a gente olhe com clareza para como meu parceiro está me tratando.” Se ele desvia disso de forma consistente, o modelo dele pode não servir para a sua situação.
Pergunta 2: Como saber se meu casamento é “difícil” ou realmente prejudicial?
Resposta 2: Casamentos difíceis ainda têm respeito básico, segurança emocional e espaço para seus sentimentos. Casamentos prejudiciais têm padrões repetidos de controle, medo, humilhação ou indiferença crônica à sua dor. Se você sente que precisa se encolher, mentir ou se trair o tempo todo para manter a paz, isso vai além de “só difícil”.
Pergunta 3: É errado querer ir embora mesmo sem abuso óbvio?
Resposta 3: Abuso não é o único “ingresso” válido de saída. Solidão profunda, desconsideração crônica ou incompatibilidade total em valores centrais podem ser suficientes. Seu desejo por uma vida que pareça menos sobrevivência e mais vida é legítimo, mesmo sem um grande “título dramático”.
Pergunta 4: Posso continuar em terapia com alguém que não apoia minha ideia de ir embora?
Resposta 4: Pode, mas se pergunte o que você está, de fato, ganhando com isso. Se a terapia te ajuda a se entender, construir recursos e fazer escolhas mais claras, ainda pode ser útil. Se você sai se sentindo encurralada ou moralmente julgada por querer sair, essa aliança provavelmente não está te servindo.
Pergunta 5: Como levantar minhas dúvidas sobre o conselho sem parecer desrespeitosa?
Resposta 5: Você pode ser direta e gentil: “Eu valorizo sua perspectiva, e também estou começando a sentir que ficar pode estar me machucando. Podemos explorar minhas opções com a mesma abertura com que exploramos formas de consertar o casamento?” Um bom terapeuta vai acolher essa conversa, não te punir por ela.
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