O domingo pede comida que cozinha sozinha enquanto a casa enche de cheiro bom. Ossobuco ensopado com legumes é isso: carne realmente macia, molho naturalmente aveludado (graças ao colágeno) e tudo feito num único tacho, sem truques.
O “trabalho” está nas decisões do começo: dourar bem, manter fogo baixo e dar tempo para o colágeno virar molho.
Ossobuco: o corte que premia a paciência
Ossobuco é jarrete com osso e tutano. É um corte cheio de colágeno: no cozimento longo e gentil, ele se transforma em gelatina e deixa o molho sedoso.
Regras simples que fazem diferença:
- Cozimento lento: mantenha só uma fervura bem leve (borbulhas pequenas). Em geral, isso fica na faixa de 90–95 °C, não em ebulição forte.
- Corte da membrana: faça 2–3 pequenos cortes na “película” em volta da carne antes de selar. Isso evita que a fatia “encurve” e cozinhe desigual.
- Não corra com o fogo: calor alto reduz o líquido antes de a carne ceder; calor constante amacia e ainda adoça os legumes.
O tacho único: menos louça, mais sabor
Um tacho só funciona porque o sabor é construído em camadas:
1) Selar cria os pontos dourados no fundo (base do sabor).
2) Deglacear com vinho/caldo solta tudo isso.
3) Tampa + fogo baixo mantém umidade e evita ressecar.
Para não perder textura e cor:
- Não lote a panela: sele em etapas, se preciso. Carne amontoada “cozinha” em vez de dourar.
- Panela de fundo grosso ajuda: distribui melhor o calor e reduz o risco de queimar no fundo.
- Legumes com função: cenoura e cebola dão doçura/estrutura; aipo (ou alho-poró) dá aroma; batata ou nabo ajudam a ligar o molho ao quase desmanchar.
Passo a passo: ossobuco ensopado com legumes (sem estresse)
O que precisa (4 pessoas)
- 4 fatias de ossobuco (2,5–3 cm de espessura)
- Sal e pimenta-do-reino
- Farinha (1–2 colheres de sopa, opcional)
- 2 colheres de sopa de azeite + 1 pedaço de manteiga (opcional)
- 1 cebola grande picada
- 2 cenouras em meias-luas
- 2 talos de aipo fatiados (ou alho-poró, se preferir)
- 3–4 dentes de alho amassados
- 1 colher de sopa de extrato de tomate (opcional)
- 150–200 ml de vinho branco (ou tinto leve e seco)
- 500–700 ml de caldo (carne/frango/legumes)
- 2 folhas de louro + 1 ramo de salsinha ou tomilho
- 1 batata grande em cubos (ou nabo/abobrinha, conforme a estação)
- Raspas de limão e salsinha picada para servir (opcional, mas equilibra a gordura)
Como fazer (num tacho largo)
- Temperar e preparar. Tempere com sal e pimenta. Se a fatia tiver a membrana dura na borda, faça pequenos cortes nela. Para molho mais “ligado”, passe de leve na farinha e retire o excesso.
- Selar sem mexer demais. Aqueça bem o tacho, junte azeite (e manteiga) e doure por 2–3 minutos de cada lado. Faça em levas se necessário. Reserve.
- Base de legumes. No mesmo tacho, coloque cebola, cenoura e aipo com uma pitada de sal. Sue por 6–8 minutos, raspando o fundo para soltar o dourado.
- Perfumar e reforçar. Entre com alho e (se usar) extrato de tomate por 1 minuto, só para acordar o aroma.
- Desglacear e montar. Adicione o vinho e ferva 1–2 minutos para cozinhar o álcool. Volte a carne, junte louro, ervas e caldo até cobrir cerca de 2/3 da altura do ossobuco.
- Cozinhar com calma. Tampe e mantenha em fogo baixo por 1h15–1h45. Vire na metade se alguma parte ficar mais exposta ao líquido. (Se estiver fervendo forte, baixe: a ideia é borbulhar de leve.)
- Legumes finais e textura. Coloque a batata nos últimos 25–30 minutos. Se o molho ficar ralo, reduza destampado 10 minutos; se engrossar demais, ajuste com caldo quente. Se soltar muita gordura na superfície, retire o excesso com uma colher.
- Servir. Ajuste sal e pimenta. Finalize com salsinha e raspas de limão para dar frescor e “limpar” a riqueza do tutano.
Os erros que estragam o “molho aveludado” (e como evitar)
O mais comum é errar o ritmo: fervura forte deixa a carne mais “tensa” e o molho pode reduzir cedo demais; pouco líquido ou panela fina aumentam a chance de grudar e amargar.
Checklist rápido para manter tudo no ponto:
- Fogo alto demais: procure borbulhas pequenas e constantes, não ebulição.
- Pouco espaço no tacho: panela larga (ou selar em levas) evita carne amontoada.
- Mexer/virar toda hora: depois de selar, mexa o mínimo para não desmanchar.
- Sal sem provar no final: o molho reduz e concentra; ajuste aos poucos nos últimos 15 minutos.
Variações que funcionam (sem mexer na alma do prato)
A técnica é a mesma; troque os legumes pela estação. No frio, couve (ou couve-lombarda) entra nos últimos 10 minutos e “bebe” o molho. Em dias mais quentes, ervilhas e favas pedem só 5–8 minutos para não perderem cor e textura.
Para uma pegada mais italiana, finalize com gremolata (salsinha + raspas de limão + alho bem picado). O frescor contrasta com o cozimento longo e deixa o prato menos “pesado”.
| Ajuste | O que muda | Quando usar |
|---|---|---|
| Farinha na carne | Molho mais ligado | Se você gosta de molho “cobrindo” |
| Vinho tinto leve | Sabor mais profundo | Dias frios, com polenta ou purê |
| Raspas de limão no fim | Mais frescor | Quando o prato parece “pesado” |
Como servir (e guardar) para ter “segunda refeição” melhor ainda
Sirva com purê, arroz branco ou polenta: tudo vira “veículo” para o molho. No dia seguinte, funciona muito bem com massa curta: desfie a carne, aqueça devagar e misture.
Para guardar com segurança e manter a textura:
- Geladeira: até 3 dias, em pote fechado. (Espere amornar e leve para gelar; evite deixar muito tempo fora.)
- Reaquecer: fogo baixo, com um pingo de água/caldo, até aquecer bem por inteiro sem ferver forte.
FAQ:
- Posso fazer só com água em vez de caldo? Pode, mas fica menos profundo. Compense com mais legumes, ervas e uma redução final um pouco maior.
- Como sei que o ossobuco está mesmo macio? O garfo entra sem esforço e a carne se solta em lascas, mas ainda mantém alguma forma. Se estiver firme, dê mais 15–20 minutos em fogo baixo.
- O tutano é obrigatório comer? Não. Dá para servir no osso e cada pessoa decide: retirar com colher e misturar no molho deixa tudo mais rico.
- Dá para congelar? Sim, por até 3 meses, de preferência com o molho. Descongele na geladeira e reaqueça em fogo baixo.
- Que legumes não devo pôr de início? Abobrinha, ervilhas e espinafre entram perto do fim para não desmancharem nem apagarem o molho.
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