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Dizemos defender a liberdade de expressão, mas a cultura do cancelamento impede o debate honesto.

Grupo de jovens em café conversando e usando celulares, com caderno e fone de ouvido na mesa.

A sala fica em silêncio antes mesmo de alguém dizer uma palavra.
Não porque o assunto seja dramático, mas porque todo mundo agora conhece a regra não dita: escolha as palavras como se estivesse atravessando um campo minado. Um colega olha para a porta, outro para o celular, como se tuítes pudessem explodir dali. Alguém começa uma frase e, no meio do ar, já edita, aparando qualquer opinião que possa soar arriscada em 2024.

Nós dizemos, alto e orgulhosos, que acreditamos na liberdade de expressão.
Ainda assim, a maioria de nós ensaia os próprios pensamentos três vezes antes de ousar sussurrá-los.

Alguma coisa mudou.
E ninguém quer ser o primeiro a dizer em voz alta aquilo que todo mundo sente.

Dizemos “liberdade de expressão”, mas falamos como se estivéssemos sob vigilância

Observe as pessoas conversando em um café e você vai perceber.
As vozes ficam mais baixas quando a conversa sai do terreno seguro e esbarra em raça, gênero, política ou qualquer coisa que o Twitter possa transformar em arma. Alguém olha para a mesa ao lado e diminui o volume, só por precaução, caso um estranho esteja gravando.

Não estamos em uma ditadura, ninguém está ameaçando prisão.
Mesmo assim, dá para sentir essa eletricidade nervosa no ar, a sensação de que uma frase mal colocada pode custar um emprego, uma reputação, uma amizade.

No papel, nunca tivemos tantas formas de falar.
Na realidade, cada vez mais gente está migrando para chats privados para dizer o que realmente pensa.

Pergunte a qualquer pessoa com menos de 35 anos sobre postar uma opinião online e você vai ouvir a mesma história.
O amigo que apagou um tuíte depois de três minutos. O colega que teve de publicar um longo fio de desculpas porque um trecho antigo de podcast reapareceu. O estudante que mudou o nome do perfil antes de se candidatar a estágios, limpando anos de postagens adolescentes.

Cultura do cancelamento não é só a manchete dramática sobre celebridades.
É a autocensura silenciosa de gente comum que não quer virar “personagem principal” nas redes por 24 horas.

Um diretor de RH que entrevistei mantém uma lista privada: candidatos rejeitados porque multidões online os marcaram como “problemáticos”.
Sem tribunal, sem juiz - só uma turba digital e um print que nunca morre.

O que isso faz com o debate honesto é sutil e brutal.
Se toda conversa parece prova em potencial, as pessoas param de testar ideias em voz alta. Passam a apresentar apenas opiniões polidas e seguras. Nada incerto. Nada pela metade.

Debater costumava ser bagunçado e humano. Você dizia algo desajeitado, alguém contestava, você aprendia, ajustava. Agora, o medo é que uma frase desajeitada te defina para sempre.

O resultado é uma cultura de performance, não de discussão.
A gente encena as posições “certas”, compartilha os posts “certos”, assina as declarações “certas”. As dúvidas e perguntas reais vão para o subterrâneo, para chats criptografados e redes de sussurros.

Isso não é liberdade de expressão.
Isso é teatro com um custo altíssimo.

Como discordar sem transformar toda discussão em um julgamento público

Há um pequeno hábito prático que pode mudar completamente o tom de uma conversa.
Em vez de ir direto para “Você está errado”, comece com “Me ajuda a entender como você chegou nisso”. Parece suave, mas não é fraqueza. É um convite.

Quando alguém sente que foi convidado, e não atacado, vai te mostrar o caminho que percorreu até a conclusão.
Aí você pode discordar dos passos, não da pessoa.

Diga coisas como “O que me preocupa nessa ideia é…” ou “Posso discordar de uma parte disso?”.
Você não está se censurando; está mantendo a porta aberta para que a outra pessoa não a bata primeiro.

A maioria de nós cai nas mesmas armadilhas quando o debate esquenta.
Começamos a empilhar rótulos: “tóxico”, “problemático”, “preconceituoso”, “floco de neve”. Essas palavras parecem poderosas no momento, mas basicamente dizem: “Você, como pessoa, é inválido.” Depois disso, o outro lado para de escutar e começa a defender a própria identidade.

Todos nós já passamos por isso: aquele momento em que você se arrepende de apertar “tuitar” porque buscou o nocaute em vez da conversa.
Sejamos honestos: ninguém faz isso todo santo dia. Ninguém “checa fatos antes de compartilhar” toda postagem feita com raiva ou respira fundo antes de responder.

O truque não é ser perfeito.
É perceber o momento em que a raiva quer transformar discordância em exílio - e escolher não alimentá-la.

Em um workshop recente sobre fala no campus, um estudante disse baixinho: “Eu não tenho medo de estar errado; tenho medo de ser destruído.”
Essa frase ficou no ar por mais tempo do que qualquer definição jurídica de liberdade de expressão.

  • Comece com curiosidade, não com acusação
    Faça uma pergunta genuína antes do seu primeiro contra-argumento. Isso reduz a temperatura da troca.
  • Use frases na primeira pessoa (“eu”) em vez de vereditos morais
    “Eu me sinto desconfortável com isso porque…” soa muito diferente de “Pessoas como você são o problema.”
  • Crie pequenos espaços ‘fora do registro’
    Clubes do livro privados, encontros offline ou jantares sem celular permitem que as pessoas testem ideias sem medo de humilhação pública instantânea.
  • Distinga dano de desconforto
    Ser desafiado pode ser desagradável, mas nem todo sentimento desagradável é uma forma de violência.
  • Deixe o cancelamento total para padrões claros, não para uma frase desajeitada

Pessoas crescem. Prints não. Trate-os de forma diferente.

O custo do medo é mente quieta e multidões barulhentas

Quando as pessoas deixam de confiar que podem estar erradas em público, a curiosidade é a primeira a morrer.
Por que fazer uma pergunta arriscada se a resposta pode ser “Como você se atreve a pensar isso?” Por que explorar um ângulo controverso se seu empregador pode ser marcado nas respostas até amanhã de manhã?

Uma sociedade que pune cada escorregão acaba recompensando apenas dois tipos de fala: slogans perfeitamente roteirizados e raiva anônima.
Ambos fazem barulho. Nenhum é honesto.

Alguns leitores vão dizer que cultura do cancelamento são apenas consequências. Outros vão dizer que é um escudo para gente poderosa que não gosta de crítica. Os dois lados têm um pedaço da verdade. A tensão mora no meio, onde as consequências viram desproporcionais, e o medo se espalha muito além da ofensa original.

Talvez a verdadeira pergunta não seja “Somos a favor ou contra a cultura do cancelamento?”.
Talvez seja: com que tipo de discordâncias estamos dispostos a conviver, em público, sem tentar apagar a pessoa do outro lado?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Congelamento psicológico As pessoas se autocensuram não por lei, mas por medo de multidões online e dano reputacional Ajuda você a entender por que debates parecem tensos até em sociedades “livres”
Métodos de conversa Use curiosidade, frases na primeira pessoa (“eu”) e espaços menores offline para conversas honestas Oferece ferramentas concretas para discordar sem destruir relacionamentos
Consequências com nuance Diferencie responsabilização de punição desproporcional Permite responder a fala prejudicial sem alimentar uma cultura do medo

FAQ:

  • Pergunta 1: A cultura do cancelamento é real ou é só um chavão usado por quem não gosta de crítica?
    Resposta 1
    Sempre existiu punição social por dizer a coisa “errada”. O que parece novo hoje é a velocidade, a escala e a permanência. Um único vídeo pode se espalhar pelo mundo em horas e ficar nos resultados do Google por anos. Algumas pessoas se escondem atrás de “cultura do cancelamento” para fugir de críticas legítimas, mas isso não apaga o efeito inibidor muito real que muitos outros sentem.

  • Pergunta 2: Como eu digo o que penso sem ser massacrado online?
    Resposta 2
    Escolha seus campos. Ideias com nuance sobrevivem melhor em espaços longos (podcasts, ensaios, grupos privados) do que em posts de 20 palavras. Mostre seu raciocínio: explique como chegou à sua visão, reconheça onde pode estar errado e responda de boa-fé. Isso não vai te proteger de toda avalanche, mas sinaliza que você está ali para pensar, não para trollar.

  • Pergunta 3: Mas algumas falas não são genuinamente prejudiciais e não precisam de sanções sociais fortes?
    Resposta 3
    Sim. Sociedades abertas ainda traçam limites em torno de ameaças diretas, assédio ou incitação clara. O desafio não é “nunca haver consequências”; é haver consequências proporcionais. Perder um contrato de livro por uma frase honesta, porém desajeitada, não é o mesmo que enfrentar reação por abuso direcionado. Tratar as duas coisas como idênticas achata todo o mapa moral.

  • Pergunta 4: O que posso fazer se eu tiver medo de falar no trabalho ou na universidade?
    Resposta 4
    Encontre - ou construa - pequenos círculos de confiança onde a discordância de boa-fé seja bem-vinda. Pode ser um grupo de leitura, um clube de discussão suprapartidário ou uma relação de mentoria. Definam regras compartilhadas: nada de prints, nada de humilhação pública, criticamos ideias, não identidades. Esse tipo de microcultura pode proteger a curiosidade mesmo quando a cultura mais ampla parece tensa.

  • Pergunta 5: Como defender a liberdade de expressão sem passar pano para preconceituosos?
    Resposta 5
    Comece separando a pessoa do padrão. Uma opinião ruim não é a mesma coisa que uma campanha de ódio ao longo da vida. Denuncie ideias prejudiciais com clareza, mas ainda deixe espaço para aprendizado, pedido de desculpas e mudança. Defender a liberdade de expressão não significa aplaudir toda opinião; significa resistir ao impulso de transformar toda discordância em exílio permanente.

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