Entre receitas de caderno e versões que correm em grupos de família, hoje muita gente cozinha com ajuda de sites e assistentes. No bacalhau à Margarida da Praça, porém, a “tradução” que importa é outra: transformar um clássico em travessa simples, com cebolada bem macia e batata cozida, sem perder textura nem sabor.
O segredo é ritmo. Não é prato de 20 minutos, mas também não pede técnica de chef: pede tempo para a cebola virar molho e para o bacalhau ficar lascável, sem ressecar.
O prato de travessa que resiste ao “já feito”
No Brasil, bacalhau costuma aparecer em datas como Páscoa e fim de ano - e também quando se quer um almoço certeiro “de travessa”. O “à Margarida da Praça” funciona por isso: ingredientes familiares, forno fazendo boa parte do trabalho e uma montagem sem formalidade.
A cebolada é o coração do prato. Quando fica macia e adocicada, perfuma a cozinha e reduz a necessidade de sal (bacalhau já traz sal, mesmo depois de dessalgado). Na prática, a diferença entre “bom” e “muito bom” costuma ser dar 25–35 minutos de fogo baixo à cebola antes de montar.
Pressa queima por fora e deixa crua por dentro; tempo vira molho.
O essencial: poucos ingredientes, bem tratados
A lista é curta e aceita variações. O que não perdoa é dessalga apressada (quando o bacalhau é salgado) e cebola mal cozida. Para 4–6 pessoas, uma base comum é:
- Bacalhau dessalgado (postas, lombos ou lascas grandes)
- Batata (batata inglesa), cozida e fatiada ou em metades
- Cebola em quantidade generosa
- Azeite, alho, louro
- Pimenta-do-reino e sal só se necessário
- Opcional: ovos cozidos, azeitonas, salsa, pimentão assado
Proporção prática, sem complicar: 1 parte de bacalhau : 1,5 partes de batata : muita cebola.
| Ingrediente | Quantidade típica | Nota rápida |
|---|---|---|
| Bacalhau dessalgado | 800 g–1 kg | Lascas grossas ficam mais suculentas |
| Cebola | 700 g–1 kg | É ela que “vira” o molho |
| Batata | 1,2–1,5 kg | Cozida firme, para não desmanchar |
Dica rápida de realidade: no Brasil, o “bacalhau” pode variar bastante (tipo e corte). Para travessa, prefira peças mais altas (lombo/posta) ou lascas grandes; rendem melhor e não somem no forno.
A cebolada macia: o truque é o fogo, não o açúcar
Não precisa “adoçar” a cebola com atalhos. Aqui, o caminho é direto: azeite suficiente, panela larga, fogo baixo e paciência. A ideia não é caramelizar escuro; é amolecer até ficar sedosa, com dourado leve.
Como fazer sem queimar nem ficar aguada
- Corte a cebola em meias-luas finas e parecidas (cozinham por igual).
- Aqueça azeite numa panela larga; junte cebola, 2 folhas de louro e 1 dente de alho amassado.
- Cozinhe em fogo baixo, mexendo de vez em quando, por 25–35 minutos.
- Se começar a grudar, pingue 2–3 colheres (sopa) de água e raspe o fundo; evite subir o fogo.
- Tempere com pimenta; sal só depois de provar (e só se o bacalhau estiver bem suave).
O ponto parece “passado” na panela: brilhante, muito macio, com volume bem reduzido. No forno, isso vira molho em vez de virar cebola crua “por baixo”.
Montagem em travessa: batata cozida, bacalhau lascado, forno a unir tudo
Monte em camadas simples e sem apertar demais. A batata funciona como esponja: segura azeite e sabor da cebolada, e ajuda a proteger o bacalhau do ressecamento.
Passo a passo (sem floreios)
- Dessalgue (se necessário): de véspera, na geladeira, em água fria, trocando 3–4 vezes (peças altas podem pedir mais tempo).
- Aqueça o bacalhau: escalde 5–8 minutos, sem ferver forte, só até começar a lascar. Retire pele e espinhas; reserve em pedaços grandes.
- Cozinhe as batatas até ficarem macias, mas firmes. Escorra, espere o vapor sair e fatie (isso evita “purê” na travessa).
- Pré-aqueça o forno a 180–190 ºC.
- Monte: batata no fundo, metade da cebolada, bacalhau, restante da cebolada por cima. Regue com azeite (o suficiente para envolver, sem afogar).
- Asse 20–25 minutos, até borbulhar nas bordas e dourar de leve no topo.
Extras entram no final: ovos cozidos, azeitonas e salsa ao sair do forno. Pimentão assado combina, mas use como detalhe para não competir com a cebolada.
Pequenas decisões que mudam o resultado
Os erros mais comuns aqui são repetíveis - e fáceis de evitar:
- Não desfie demais: lascas grandes ficam mais suculentas e não viram “palha”.
- Cebolada primeiro, travessa depois: tentar cozinhar a cebola só no forno tende a deixar pedaços crus.
- Azeite é ingrediente: ele carrega o sabor pela batata; pouco azeite demais costuma dar travessa seca.
- Descanse 10 minutos fora do forno: o molho assenta e a porção sai inteira.
Se quiser uma versão mais leve, mantenha a cebola (ela dá volume e sabor) e reduza um pouco o azeite, soltando o conjunto com 2–4 colheres (sopa) da água do cozimento da batata.
O que fazer com sobras (e por que ficam melhores no dia seguinte)
No dia seguinte, a batata absorve o molho e a cebolada fica ainda mais doce. Três usos que funcionam bem:
- Amassar e saltear como roupa velha rápida
- Virar omelete de bacalhau com salsa
- Fazer sanduíche quente com um fio de azeite e pimenta
Armazenamento: geladeira, pote bem fechado, por 2–3 dias. Reaqueça até ficar bem quente no centro; se estiver seco, pingue um pouco de água ou azeite antes.
FAQ:
- Posso usar bacalhau já dessalgado do supermercado? Pode. Ainda assim, prove antes de ajustar sal (alguns vêm mais “temperados” que outros).
- A batata deve ser em rodelas ou em metades? Rodelas deixam a travessa mais uniforme; metades (ou gomos) seguram melhor a forma e dão um resultado mais rústico.
- Dá para fazer sem forno? Dá, mas você perde o “abraço” do calor seco. No fogão, use panela larga, fogo bem baixo e tampa, até o molho envolver tudo.
- Que azeite devo usar? Um azeite extra virgem de boa qualidade, frutado médio, costuma funcionar melhor. Os muito amargos podem dominar a cebola.
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