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Estudo revela que gatos podem desenvolver demência parecida com Alzheimer… e essa pista ajuda a entender nosso próprio cérebro

Pessoa limpando piso com pano enquanto gato caminha. Sala com brinquedo, despertador, e janela ao fundo.

Num canto quieto da casa, um gato idoso pode começar a agir como se o próprio lar tivesse virado um lugar desconhecido - e a ciência agora sugere que isso talvez não seja “mania” nem apenas efeito da idade. Um estudo liderado pela Universidade de Edimburgo, com apoio do UK Dementia Research Institute e da Universidade da Califórnia, encontrou evidências de que parte dos felinos mais velhos desenvolve um quadro de declínio cognitivo com mecanismos semelhantes aos observados na doença de Alzheimer em humanos.

Mudanças em gatos acima de 12 anos que podem indicar declínio cognitivo

Veterinários de diferentes países vêm descrevendo um conjunto de comportamentos que se torna mais frequente em gatos a partir dos 12, 14 ou 15 anos. Muitas vezes, tutores interpretam os sinais como “gênio”, estresse ou velhice normal, mas eles podem apontar para um processo neurológico.

Entre os comportamentos relatados estão:

  • Miados fortes durante a madrugada, sem causa aparente
  • Confusão ou desorientação em ambientes familiares
  • Perda de hábitos de higiene e uso irregular da caixa de areia
  • Mudanças marcantes no padrão de sono e vigília
  • Isolamento, irritabilidade ou apatia fora do habitual

Dados citados pela SciTechDaily indicam que, entre gatos com mais de 15 anos, quase metade apresenta ao menos um sintoma associado ao declínio cognitivo.

Achados no cérebro felino: placas de beta-amiloide e dano às sinapses

Para investigar o que estaria por trás dessas alterações, cientistas analisaram cérebros de gatos idosos, incluindo animais com sinais clínicos de demência. Com microscopia confocal - técnica que gera imagens tridimensionais em alta resolução - a equipe identificou depósitos de proteína beta-amiloide, um marcador conhecido em cérebros humanos com Alzheimer.

Além da presença de placas, os pesquisadores observaram um detalhe considerado especialmente relevante: a beta-amiloide não estava apenas “espalhada” pelo tecido, mas também invadia sinapses, os pontos de conexão entre neurônios responsáveis pela transmissão de informação. Quando essas conexões são comprometidas, a comunicação neural perde precisão, o que pode afetar memória, atenção e orientação, além de favorecer mudanças comportamentais.

O trabalho foi publicado no European Journal of Neuroscience e descreve que, nos felinos, essas alterações aparecem espontaneamente com o envelhecimento - sem necessidade de manipulação genética ou indução em laboratório.

Resposta do próprio cérebro: quando a limpeza das conexões se torna destrutiva

O estudo também aponta que o acúmulo de beta-amiloide não atua sozinho. O cérebro reage ao excesso dessa proteína com a participação de células de suporte, especialmente astrócitos e micróglias, envolvidas em processos de manutenção e defesa do sistema nervoso.

Poda sináptica: a “faxina” que pode sair do eixo

Em condições normais, micróglias e astrócitos participam da poda sináptica (ou elagagem sináptica), um mecanismo que elimina conexões fracas ou em excesso para otimizar circuitos neurais durante o desenvolvimento e ao longo da vida.

No caso da demência felina, as imagens 3D analisadas pelos cientistas mostraram sinapses contendo beta-amiloide cercadas por micróglias e astrócitos, como se estivessem sinalizadas para remoção. O estudo descreve que sinapses com a proteína tóxica eram engolidas com mais frequência por essas células, sugerindo um processo ativo de eliminação, e não apenas um desgaste natural do envelhecimento.

Esse padrão, segundo os autores, não apareceu com a mesma intensidade em cérebros de gatos idosos sem sinais de demência, reforçando a hipótese de uma condição patológica específica.

Por que os gatos entram no radar como modelo natural para estudar Alzheimer

Há décadas, parte significativa da pesquisa sobre Alzheimer utiliza camundongos geneticamente modificados para desenvolver placas de beta-amiloide. Embora úteis, esses modelos têm limitações: o curso da doença é artificialmente acelerado e nem sempre reproduz a progressão observada em humanos.

Os gatos, segundo os cientistas, podem oferecer uma alternativa por apresentarem um quadro natural, surgido no contexto do envelhecimento. Entre os pontos citados na pesquisa:

  • O declínio cognitivo aparece sem modificação genética deliberada
  • O cérebro felino é mais complexo do que o de roedores
  • Muitos animais vivem em ambiente doméstico, com estímulos variados
  • Os sinais comportamentais lembram desorientação observada em idosos humanos

Com isso, os pesquisadores veem potencial para acompanhar fases iniciais da condição, observar a resposta imune cerebral e, no futuro, avaliar medicamentos que atuem em inflamação e na dinâmica da poda sináptica.

Impacto para tutores no Brasil: o que observar e como adaptar a casa

Para quem convive com gatos idosos, a principal mensagem é de atenção: comportamentos frequentemente tratados como “ciúme” ou “frescura” podem refletir desconforto neurológico. Embora não exista cura para a demência felina, intervenções podem ajudar a reduzir ansiedade, melhorar o sono e preservar qualidade de vida.

Medidas práticas incluem:

  • Registrar mudanças relevantes em anotações ou vídeos
  • Levar ao veterinário relatos de desorientação recorrente dentro de casa
  • Monitorar padrões de sono e horários de maior atividade
  • Evitar alterações bruscas no ambiente (móveis, rotina e locais de descanso)
  • Facilitar o acesso a água, comida e caixa de areia, sem obstáculos

Em apartamentos e casas comuns no Brasil, pequenas mudanças - como oferecer uma caixa de areia extra em local acessível, manter iluminação suave à noite e reduzir barreiras (degraus, portas fechadas, mudanças de layout) - podem diminuir episódios de confusão.

Entenda os termos: o que é beta-amiloide e por que ela importa

A beta-amiloide é um fragmento de proteína produzido naturalmente pelo organismo e, em condições saudáveis, eliminado. Na doença de Alzheimer, esse fragmento tende a se acumular e formar placas, interferindo na função neuronal, provocando inflamação e, com o tempo, contribuindo para a perda de sinapses.

Nos gatos com declínio cognitivo, o estudo descreve um padrão semelhante: deposição progressiva, invasão de sinapses e uma resposta de células gliais que passa a eliminar conexões inteiras.

Do primeiro “miado estranho” a uma cascata cerebral silenciosa

Um exemplo ajuda a entender como isso pode aparecer no dia a dia. Um gato de 16 anos que sempre teve rotina previsível pode começar a miar alto de madrugada como se estivesse perdido, passar períodos olhando fixamente para uma parede e, ocasionalmente, errar a caixa de areia - apesar de nunca ter feito isso antes.

Por trás desses sinais, o estudo sugere uma sequência possível: formação de placas, sinapses contaminadas por beta-amiloide, marcação dessas conexões e remoção por micróglias e astrócitos, afetando circuitos ligados à orientação espacial, ao sono e ao comportamento. O que o tutor vê seria apenas a parte mais visível desse processo.

Próximas etapas e dilemas: pesquisa com felinos entre avanço científico e ética

Tratar gatos como modelo natural de demência pode trazer benefícios científicos - por representar uma progressão mais próxima da realidade - mas também levanta questões éticas. Por serem animais de companhia, qualquer avanço precisará considerar bem-estar, limites de intervenção e um desenho de pesquisa voltado a benefício mútuo.

A proposta defendida por pesquisadores é que os estudos ajudem simultaneamente a compreender melhor o Alzheimer em humanos e a melhorar o cuidado com felinos idosos, com diagnósticos mais precisos, exames de imagem adaptados, protocolos para clínicas e lares e terapias que não acrescentem sofrimento. Se confirmadas e aprofundadas, essas descobertas podem transformar o envelhecimento felino de um mistério doméstico em uma pista relevante sobre como a demência começa - e como pode ser enfrentada em diferentes espécies.

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