Kakapo volta a dar sinais de recuperação na Nova Zelândia com início da temporada reprodutiva de 2026
Nas encostas úmidas da Nova Zelândia, antenas discretas instaladas em meio a coníferas antigas começaram a captar um som aguardado por anos: os bipes das coleiras de rádio indicando movimentação típica de corte. O retorno de atividade reprodutiva do kakapo - papagaio noturno, robusto e incapaz de voar - reacende a esperança de estabilizar uma das aves mais ameaçadas do planeta.
Dados do Department of Conservation (DOC), órgão responsável pela conservação no país, apontam que havia 236 kakapos registrados no início de 2026, incluindo 83 fêmeas em idade reprodutiva. Para uma espécie que chegou a beirar o desaparecimento, cada ninho e cada filhote pode ter impacto direto na sobrevivência genética da população.
O começo da temporada de reprodução de 2026 é tratado por pesquisadores como a melhor oportunidade em décadas para consolidar a recuperação de uma espécie que esteve à beira do abismo.
Uma ave improvável que quase desapareceu
O kakapo é um papagaio de plumagem verde-musgo, terrestre e de hábitos noturnos. Ao contrário da maioria dos psitacídeos, ele não voa e se desloca pelo chão, o que o torna especialmente vulnerável a predadores. Por milênios, viveu com relativa segurança na Nova Zelândia, onde a ausência histórica de mamíferos predadores favoreceu sua evolução.
Esse quadro mudou rapidamente com a chegada humana e de espécies introduzidas, como ratos, gatos e doninhas, que desequilibraram o ambiente e transformaram o kakapo em presa fácil. No começo do século XX, a população já colapsava. Nos anos 1990, biólogos registraram apenas 51 indivíduos, distribuídos entre ilhas e refúgios isolados.
Três décadas depois, o avanço é real, mas ainda delicado: a espécie segue dependente de manejo intenso e de condições ambientais específicas para se reproduzir.
A peça-chave de 2026: o rimu e a frutificação em massa
O impulso por trás da temporada de 2026 está ligado a um fenômeno raro da floresta nativa: a frutificação em massa do rimu, uma conífera que pode viver mais de 600 anos. O kakapo não se reproduz anualmente; sua reprodução costuma ocorrer quando há abundância de alimento, e os frutos do rimu funcionam como gatilho.
Em anos de alta frutificação, as copas ficam carregadas de frutos energéticos. Para as fêmeas, esse excedente altera o metabolismo: o peso corporal aumenta, os hormônios mudam e o comportamento reprodutivo é acionado. Em períodos de escassez, muitas sequer iniciam o processo.
O último grande evento desse tipo havia ocorrido em 2022. Depois disso, não houve nova temporada relevante de acasalamento. Em janeiro de 2026, o monitoramento por rádio começou a registrar padrões de deslocamento e atividade compatíveis com encontros entre parceiros - um sinal claro de que a “janela” ecológica tinha se aberto novamente.
Como funciona o acasalamento: leks e chamadas que atravessam quilômetros
Com a temporada em andamento, os machos se concentram em áreas conhecidas como leks, arenas de acasalamento onde cada indivíduo escava pequenas depressões no solo. Essas cavidades atuam como caixas de ressonância naturais.
Durante a noite, os machos emitem vocalizações graves, comparadas por pesquisadores a batidas de tambor, capazes de se propagar por vários quilômetros. As fêmeas, caminhando no escuro, seguem esses chamados até escolher um parceiro.
Para cientistas, esses “concertos” noturnos - raramente observados diretamente - ajudam a medir tanto a vitalidade do ecossistema quanto o estado da própria população.
Após a cópula, o macho não participa da criação. A fêmea assume sozinha a incubação e o cuidado do ninho e, quando tudo dá certo, consegue criar um filhote viável. Por ser uma espécie de crescimento lento, mesmo uma temporada com ganhos modestos pode alterar as estatísticas de conservação.
Mudança no manejo: menos intervenção direta e mais autonomia das aves
Ao longo de anos, o programa de recuperação do kakapo apostou em ações intensivas para evitar a extinção: retirada de ovos para incubação artificial, alimentação manual de filhotes e acompanhamento presencial constante. A estratégia elevou a população e, segundo especialistas, foi decisiva para impedir o desaparecimento da espécie.
Mas o modelo também trouxe efeitos colaterais. Alguns kakapos passaram a associar humanos a interação social. O caso mais conhecido é o de Sirocco, macho que ficou famoso internacionalmente por tentar copular com pessoas durante visitas de campo - comportamento tratado por biólogos como evidência de distorção causada por contato excessivo.
Em 2026, o DOC passou a adotar uma linha considerada mais “naturalista”: intervir apenas quando necessário, reduzir a manipulação de ovos e filhotes e ampliar o uso de monitoramento remoto. A orientação é permitir que fêmeas com duas ou três crias tentem conduzir a criação, mesmo com riscos.
Principais pontos da abordagem nesta temporada:
- Redução da incubação artificial de ovos considerados viáveis
- Monitoramento remoto reforçado, com menor presença humana no terreno
- Foco no aprendizado e manutenção de comportamentos naturais
- Tecnologia usada de forma seletiva, concentrada em situações críticas
A meta deixa de ser apenas ampliar a contagem de indivíduos e passa a formar uma população que não dependa de “cuidados de babá” permanentemente.
O que pode mudar com a temporada de 2026
Com 83 fêmeas reprodutivas e o rimu em frutificação ampla, a expectativa é que 2026 registre o maior número de ninhos ativos em três décadas de monitoramento. O primeiro aumento mais visível no número de filhotes é esperado a partir de meados de fevereiro.
Para a ciência da conservação, cada filhote que se mantém saudável com menor intervenção abre caminho para um plano mais ambicioso: reocupar áreas históricas da espécie. No entanto, isso depende da criação de locais - ilhas e também áreas continentais - efetivamente livres de predadores introduzidos, um desafio considerado central na Nova Zelândia.
| Ano | Estimativa de kakapos vivos | Marco principal |
|---|---|---|
| 1995 | 51 | Reconhecimento oficial de risco extremo de extinção |
| 2022 | cerca de 200 | Última grande frutificação de rimu antes de 2026 |
| 2026 | 236 | Maior número de fêmeas reprodutivas monitoradas |
Tecnologia na medida certa e o tempo da natureza
O caso do kakapo também alimenta uma discussão global em biologia da conservação: qual é o limite do suporte tecnológico? Radiotransmissores, incubadoras e câmeras térmicas ajudaram a salvar indivíduos e a localizar ninhos, mas o uso irrestrito pode produzir populações dependentes de assistência contínua.
Na Nova Zelândia, a tentativa é buscar equilíbrio. Equipamentos seguem sendo empregados, principalmente para identificar ninhos e acompanhar aves doentes, mas o objetivo declarado passou a ser fortalecer a independência comportamental. Em outras palavras, o kakapo precisa voltar a ser, de fato, selvagem.
O programa será considerado plenamente bem-sucedido quando a espécie conseguir sustentar sua trajetória sem que pesquisadores precisem acompanhar cada passo.
Por que o kakapo importa: ecologia, cultura e parceria com o povo māori
Do ponto de vista ecológico, o kakapo é tratado como um indicador da integridade das florestas nativas: uma temporada forte sugere condições favoráveis que incluem frutificação do rimu, equilíbrio de clima e solo, presença de polinizadores e controle rigoroso de predadores.
A dimensão cultural também pesa. Comunidades māori, como os Ngāi Tahu, participam das decisões ao lado do DOC. Para esses grupos, o kakapo é um taonga - um tesouro vivo - ligado a narrativas ancestrais e a uma relação de responsabilidade com a natureza. Isso influencia a forma como o manejo é conduzido e como os resultados são encarados, para além de metas numéricas.
Riscos ainda no horizonte e cenários para o futuro
Apesar do clima de otimismo, os especialistas mantêm cautela. A reprodução do kakapo depende de eventos irregulares de frutificação; uma sequência de anos ruins para o rimu pode frear o crescimento populacional por longos períodos. Além disso, doenças respiratórias seguem sendo preocupação constante em populações pequenas, com baixa diversidade genética.
Num cenário desfavorável, a combinação de pouca comida e surtos de doença poderia reduzir novamente o número de aves, exigindo a retomada de intervenções intensivas - com custos maiores e risco de novos impactos no comportamento.
Já em um cenário positivo, a continuidade da reprodução e o avanço na erradicação de predadores podem permitir a ampliação de áreas seguras, com a soltura de grupos em regiões onde hoje a espécie não consegue se manter. Cada ilha livre de predadores, nesse contexto, funciona como uma apólice extra contra eventos inesperados.
Termos técnicos tendem a acompanhar esse debate:
- Leks: arenas de acasalamento onde machos competem por meio de sons e exibição.
- Espécie endêmica: ocorre apenas em uma região específica - como o kakapo na Nova Zelândia.
- Frutificação em massa (mast fruiting): evento raro em que árvores como o rimu produzem grande quantidade de frutos, abrindo a janela para temporadas reprodutivas excepcionais como a de 2026.
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