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Enquanto em todo o planeta o nível do mar sobe, na Groenlândia ele está prestes a baixar

Casas coloridas e barcos em frente a um fiorde com geleiras ao fundo, sob céu limpo e ensolarado.

Projeções indicam recuo do mar em parte da Groenlândia até 2100, apesar da alta global

Enquanto metrópoles costeiras ao redor do mundo se preparam para enfrentar a elevação do nível do mar nas próximas décadas, novas projeções apontam um comportamento inverso em grande parte do litoral da Groenlândia: a tendência é de queda do nível relativo do mar ao redor da ilha até o fim do século. O resultado, publicado na Nature Communications por pesquisadores do Lamont-Doherty Earth Observatory, da Columbia University, combina efeitos de gravidade, redistribuição de água no oceano e a lenta elevação do terreno após a perda acelerada de gelo.

Segundo o estudo, em quase todos os cenários avaliados o mar tende a “recuar” localmente ao redor da Groenlândia até 2100 - em alguns trechos, a redução pode ultrapassar 2,5 metros, mesmo com o oceano continuando a subir, em média, no restante do planeta.

Um recuo local em meio à elevação global dos oceanos

A elevação do nível do mar é um dos indicadores mais acompanhados da crise climática. Relatórios do IPCC apontam que o avanço das águas deve prosseguir, afetando portos, infraestrutura urbana, áreas de pesca e grandes cidades costeiras. Por isso, a ideia de “queda do nível do mar” parece, à primeira vista, incompatível com o aquecimento global.

Ao redor da Groenlândia, porém, o estudo indica que as regras mudam: a própria perda de gelo que contribui para aumentar o nível médio global pode, paradoxalmente, levar a uma diminuição do nível relativo do mar nas costas da ilha. Longe de representar alívio, os autores ressaltam que o recuo local é justamente um sinal da magnitude do derretimento anual da calota.

Gravidade em ação: a calota que puxa a água para perto - e o que acontece quando ela encolhe

A variação do nível do mar não ocorre de maneira uniforme, como se o oceano fosse um recipiente enchendo por igual. Além de temperatura, salinidade e correntes, há um fator menos intuitivo: a atração gravitacional de grandes massas, como as calotas de gelo.

A Groenlândia vem perdendo centenas de bilhões de toneladas de gelo por ano. Enquanto essa massa permanece, ela exerce força gravitacional suficiente para “atrair” água do oceano ao redor. À medida que o gelo diminui, dois processos se somam:

  • a atração gravitacional da calota enfraquece;
  • a água tende a se redistribuir para regiões mais distantes.

Esse padrão é descrito pelos cientistas como a “impressão gravitacional” (ou gravítica) do gelo. O efeito direto é contraintuitivo: próximo à Groenlândia, o nível do mar tende a baixar; em áreas distantes - incluindo zonas tropicais e subtropicais - a elevação pode ficar acima da média global.

No trabalho, a equipe cruzou modelos climáticos, observações por satélite e dados de geodésia para medir o tamanho desse efeito. A conclusão é que, em muitos pontos do litoral groenlandês, a redistribuição de água não apenas compensa como supera a alta média global dos oceanos.

O chão também muda: a elevação do terreno com o “rebote” da crosta

O derretimento não transforma apenas o oceano. Ele altera a própria crosta terrestre. Por milhares de anos, o peso de camadas de gelo com quilômetros de espessura pressionou a litosfera na Groenlândia, forçando-a para baixo em direção ao manto. Com a redução dessa carga, o terreno começa a se levantar.

Ajuste glácio-isostático: milímetros por ano que viram muito em décadas

Esse levantamento é chamado de ajuste glácio-isostático - o “rebote” da crosta. Registros por GPS já indicam, em áreas da Groenlândia, uma elevação de alguns milímetros por ano. Em escala de décadas, essa diferença se acumula e passa a ter impacto sobre portos, baías e a linha costeira.

Nos modelos analisados pela equipe da Columbia, a elevação do terreno representa uma fatia importante da queda projetada do nível relativo do mar até 2100. Os autores observam ainda que a resposta do solo é lenta: mesmo que as emissões caiam, o ajuste pode continuar por séculos.

Fator Como afeta o nível do mar perto da Groenlândia
Derretimento da calota Eleva o nível médio global, mas reduz a atração gravitacional local
Redistribuição da água Desloca água para regiões distantes, diminuindo o nível próximo
Rebote da crosta Eleva o terreno, reduzindo o nível relativo em áreas costeiras

Emissões em diferentes trajetórias: queda moderada ou recuo acima de 2,5 m

O estudo testou caminhos distintos de emissões de gases de efeito estufa, de trajetórias mais controladas - semelhantes ao cenário RCP 2.6 - a rotas de aquecimento intenso, como o RCP 8.5.

  • Em cenários de menores emissões, a redução média do nível relativo do mar no entorno da Groenlândia fica em torno de 0,9 metro até 2100.
  • Em cenários de altas emissões, com derretimento mais acelerado, o rebote do terreno se intensifica e a redistribuição de água aumenta; em partes da costa, o recuo relativo pode superar 2,5 metros.

Os autores destacam que o comportamento não será igual em toda a ilha: fiordes profundos, baías protegidas e áreas próximas a grandes geleiras costeiras podem responder de forma diferente, influenciadas pela topografia submarina, correntes locais e pela dinâmica específica de cada geleira.

O efeito para o resto do mundo - inclusive regiões tropicais

A “exceção” groenlandesa tem implicações diretas para outros litorais. Como parte da água deixa o entorno da ilha e se redistribui, regiões distantes podem ver uma elevação maior do que a média global. Para áreas tropicais densamente povoadas - como muitas cidades costeiras em latitudes mais baixas - isso significa risco adicional.

Projeções que ignorem essas diferenças regionais podem subestimar ameaças em locais vulneráveis, como deltas, ilhas baixas e grandes áreas urbanas à beira-mar, onde poucos centímetros extras já ampliam:

  • a frequência de alagamentos;
  • a erosão costeira;
  • a intrusão de sal em aquíferos.

O que muda na costa da Groenlândia: portos, pesca e rotina em comunidades litorâneas

Com cerca de 60 mil habitantes, a Groenlândia concentra a população em pequenas cidades e vilas costeiras. Infraestruturas como portos, rampas de pesca, estradas junto ao mar e áreas de armazenamento de combustível foram planejadas para um determinado nível d’água. Se o mar recuar em termos relativos, esses pontos podem ficar altos demais para o uso diário.

Uma queda de 1 a 2 metros no nível relativo pode gerar, por exemplo:

  • menor profundidade junto a cais, dificultando o acesso de embarcações;
  • necessidade de adaptar rotas de balsas e cadeias de abastecimento;
  • alterações na circulação de fiordes usados para transporte e pesca.

O estudo também menciona um efeito ainda em discussão: com menor pressão da coluna d’água, algumas geleiras que terminam no mar poderiam, em tese, reduzir o desprendimento de icebergs em certos pontos. Ainda assim, temperatura do oceano e correntes seguem decisivas, e a questão permanece aberta.

Riscos e mudanças em ecossistemas costeiros sensíveis

Ambientes costeiros na Groenlândia, já pressionados por mudanças de gelo e temperatura, podem se transformar com a alteração do nível relativo do mar. Áreas rasas usadas como alimentação por peixes e mamíferos marinhos podem mudar em profundidade, temperatura e circulação de nutrientes.

Zonas úmidas costeiras - onde a transição entre terra e mar é especialmente delicada - podem secar ou se reorganizar rapidamente, afetando rotas migratórias de aves e a disponibilidade de alimentos para comunidades locais.

Por que entender esse “paradoxo” é crucial para adaptação climática global

Os autores tratam a Groenlândia como um campo de observação para compreender como o sistema Terra responde à perda de grandes massas de gelo - um conjunto de processos que também se aplica à Antártica e a episódios de derretimento do passado geológico.

Refinar o entendimento sobre impressão gravitacional, ajuste glácio-isostático e redistribuição regional de água ajuda a melhorar modelos de nível do mar que orientam decisões caras e de longo prazo, como a altura de diques, a localização de novos portos e a expansão urbana em áreas costeiras.

No centro desse debate está uma distinção essencial: “nível relativo do mar” não se resume ao oceano subir ou descer, mas à diferença entre a altura da água e o terreno em cada trecho de costa. Na Groenlândia, esse número pode cair - ao mesmo tempo em que cada tonelada de gelo perdida contribui para elevar o risco em costas distantes, onde essa água extra chega na forma de marés mais altas e enchentes mais frequentes.

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