Casos de câncer de pulmão avançam entre pessoas que nunca fumaram e acendem alerta para poluição e riscos dentro de casa
Hospitais e registros oncológicos em diferentes países vêm identificando um movimento preocupante: cresce o número de diagnósticos de câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram. A tendência, apontada por estimativas internacionais, amplia o debate sobre fatores além do cigarro - como poluição atmosférica, exposições no ambiente doméstico e de trabalho e até possíveis influências biológicas, incluindo hormônios.
Apesar da mudança de perfil em parte dos casos, o tabagismo segue no centro do problema: entre 80% e 90% dos cânceres de pulmão ainda são atribuídos ao fumo. Ainda assim, especialistas observam que cerca de 10% dos tumores pulmonares já aparecem em não fumantes, e em algumas regiões - sobretudo grandes centros urbanos e países asiáticos - a proporção pode ser maior entre mulheres.
O câncer de pulmão em não fumantes já está entre as principais causas de morte por câncer no mundo e tende a ganhar peso em locais com ar muito contaminado.
Uma doença historicamente ligada ao cigarro, mas não exclusiva de fumantes
Por décadas, a associação entre cigarro e câncer de pulmão foi tão direta que a doença acabou vista, quase automaticamente, como consequência do tabagismo. A nova distribuição dos casos, porém, sugere que não se trata apenas de variação estatística: estudos têm reunido evidências de múltiplos elementos que podem contribuir para o risco em quem nunca fumou, incluindo:
- ar urbano poluído;
- agentes presentes em residências e locais de trabalho;
- predisposição genética;
- diferenças biológicas entre homens e mulheres.
Entender o tipo de tumor ajuda a explicar causas e orientar tratamento
O termo “câncer de pulmão” engloba tumores distintos, com evolução e fatores de risco diferentes. Na prática clínica, a doença costuma ser dividida em dois grandes grupos:
- Carcinoma de pequenas células: tende a crescer rapidamente, costuma ter pior resposta terapêutica e tem forte relação com o cigarro.
- Câncer de pulmão de não pequenas células: é o mais frequente, em geral progride de forma mais lenta e inclui subtipos como o adenocarcinoma.
Entre não fumantes, o adenocarcinoma aparece com destaque. Ele geralmente se desenvolve em áreas mais periféricas do pulmão, próximas aos alvéolos - estruturas onde ocorrem as trocas gasosas. Esse padrão contrasta com muitos tumores associados ao tabagismo, que frequentemente surgem em vias aéreas maiores, região mais exposta à fumaça.
O local de origem do tumor e o tipo de célula envolvida são pistas importantes para compreender riscos e definir a estratégia terapêutica.
Poluição do ar: o “cigarro invisível” nos centros urbanos
A poluição atmosférica, especialmente a presença de partículas finas emitidas por motores a diesel e outras fontes urbanas, ganhou protagonismo nas investigações sobre câncer de pulmão em não fumantes.
Por serem extremamente pequenas, essas partículas conseguem ultrapassar as defesas do trato respiratório, alcançar os alvéolos e provocar inflamação persistente, lesões no DNA e alterações celulares que facilitam o desenvolvimento de tumores. Em 2013, a poluição do ar foi classificada oficialmente como cancerígena para humanos por organismos internacionais ligados à pesquisa em câncer.
O problema é mais dramático em megacidades asiáticas como Pequim e Nova Délhi, onde medições diárias frequentemente ficam muito acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) - cenário compatível com o aumento de casos em não fumantes registrado nessas regiões.
Radônio, amianto e outras ameaças que podem estar dentro de casa
Os riscos não se limitam ao ambiente externo. Dentro de residências, há exposições capazes de atuar silenciosamente ao longo de anos, como:
- Radônio: gás radioativo natural, inodoro e incolor, que pode subir do solo e se concentrar em locais fechados.
- Amianto: material antes comum em telhas, caixas-d’água e componentes de construção; hoje é restrito, mas ainda pode existir em imóveis mais antigos.
- Fumaça doméstica: uso frequente de lenha, carvão ou querosene para cozinhar ou aquecer, principalmente sem ventilação adequada.
Em muitos países, o radônio é descrito como a segunda principal causa de câncer de pulmão, atrás apenas do cigarro. Áreas com solo granítico ou vulcânico podem apresentar concentrações naturais mais elevadas do gás, o que reforça a importância de monitoramento em casas e porões quando há suspeita.
A exposição contínua, mesmo a pequenas doses de gases e partículas em ambientes internos, pode somar risco ao longo do tempo.
Por que tantas mulheres não fumantes aparecem nas estatísticas
Levantamentos internacionais têm apontado que uma parcela relevante dos casos de câncer de pulmão em não fumantes ocorre em mulheres, muitas vezes com idade abaixo do perfil clássico do paciente fumante.
Entre as hipóteses mais investigadas estão:
- Influência hormonal: pesquisadores já identificaram receptores de estrogênio e progesterona em células pulmonares; a presença desses hormônios poderia, em tese, favorecer a multiplicação de células alteradas.
- Padrões de exposição: em algumas culturas, mulheres passam mais tempo em ambientes domésticos com ventilação inadequada, inclusive durante atividades como cozinhar com lenha, carvão ou sob fumaça e vapores de óleo em alta temperatura.
Os estudos indicam, no entanto, que nenhuma explicação isolada resolve o quadro: a combinação entre biologia, ambiente e genética é considerada a leitura mais provável.
Mutações genéticas abrem caminho para terapias-alvo
Nos últimos anos, avançou o mapeamento de alterações genéticas em tumores de não fumantes. Muitos deles apresentam mutações em genes como EGFR, ALK, KRAS, entre outros.
Esse conhecimento ampliou o uso das chamadas terapias-alvo - medicamentos desenhados para bloquear alterações específicas que impulsionam o crescimento do tumor. Diferentemente da quimioterapia tradicional, que afeta de forma mais ampla células de rápida divisão, essas drogas buscam atingir o “mecanismo” molecular do câncer.
Ao identificar a mutação, o médico consegue selecionar um tratamento mais direcionado, com maior chance de controle e, muitas vezes, com menos efeitos adversos.
A estratégia, associada à medicina personalizada, tem mudado a perspectiva de parte dos pacientes que nunca fumaram, já que seus tumores com frequência apresentam alterações passíveis de tratamento direcionado.
Sinais inespecíficos atrasam o diagnóstico
Mesmo em não fumantes, os sintomas iniciais tendem a ser discretos e comuns a diversos problemas respiratórios, como:
- tosse persistente;
- falta de ar aos esforços;
- dor no peito;
- cansaço fora do habitual;
- em alguns casos, perda de peso sem causa aparente.
Como essas manifestações podem se confundir com alergias e infecções, não é raro que a investigação demore meses. Em tumores associados a mutações como EGFR, alguns casos podem evoluir de forma mais lenta, o que amplia a janela de tratamento, embora o diagnóstico ainda possa ocorrer tardiamente.
Medidas possíveis para reduzir risco em quem não fuma
Embora ninguém consiga controlar sozinho a qualidade do ar de uma metrópole, algumas atitudes ajudam a diminuir a exposição a fatores conhecidos:
- Evitar exercício intenso ao ar livre em dias com qualidade do ar muito ruim.
- Manter a casa bem ventilada, sobretudo cozinha e áreas com fogão, aquecedores ou lareiras.
- Diminuir contato frequente com fumaça de lenha, carvão, querosene, óleo muito quente e incensos usados continuamente.
- Verificar, quando possível, se a residência fica em área de potencial risco para radônio e, havendo suspeita, buscar medição ambiental.
- Evitar tabagismo passivo em casa, no carro e no trabalho.
Acompanhamento médico regular também pode ajudar, especialmente para quem vive em áreas urbanas com alta poluição ou tem histórico familiar de câncer de pulmão, permitindo identificar mais cedo sinais que justifiquem exames de imagem.
Termos comuns no debate - e o que significam
Alguns conceitos aparecem frequentemente em discussões sobre câncer de pulmão em não fumantes:
- Partículas finas (PM2,5): poluentes microscópicos menores que a espessura de um fio de cabelo, capazes de alcançar as regiões mais profundas do pulmão.
- Mutação dirigida: alteração específica em um gene que passa a estimular a multiplicação descontrolada da célula e pode se tornar alvo de medicamento.
- Radiação natural: radiação proveniente do solo, rochas e até do espaço; em níveis baixos é parte do ambiente, mas pode causar dano celular quando se concentra em locais fechados.
Especialistas destacam que o risco pode ser cumulativo. Um não fumante exposto diariamente a ar urbano poluído, que trabalha em prédio antigo e pouco ventilado e retorna para uma casa sempre fechada - eventualmente em área com presença de radônio - pode somar fatores que, isoladamente, parecem pequenos. Juntos, eles mantêm o pulmão sob agressão contínua.
Mesmo quem deixou o cigarro entra no radar: ex-fumantes que vivem em cidades com poluição elevada e permanecem expostos a fumaça doméstica ou ambientes mal ventilados podem acumular camadas adicionais de risco, o que leva médicos a recomendarem vigilância mais próxima diante de sintomas respiratórios persistentes.
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