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O que acontece com o cérebro quando você passa muito tempo fazendo várias tarefas ao mesmo tempo

Homem sentado à mesa, concentrado no celular, com laptop aberto, fone de ouvido, caneca e planta ao redor.

O celular vibra na mesa, o e-mail dispara no notebook, o WhatsApp Web chama atenção e um vídeo do YouTube segue tocando ao fundo. Em poucos minutos, entre uma aba e outra, o dia vira uma sequência de interrupções - e a conta chega à noite, na forma daquela exaustão estranha de quem esteve ocupado o tempo todo, mas sente que produziu pouco. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o preço desse ritmo não aparece na tela: é o cérebro que absorve o desgaste.

Multitarefa: por que o cérebro não faz duas coisas ao mesmo tempo

À primeira vista, alternar entre relatório, grupo da família, notícia e reunião parece uma habilidade moderna. Na prática, o cérebro não executa várias tarefas complexas em paralelo: ele muda de foco rapidamente, sem pausa, em um processo mais próximo de “multi-interrupção” do que de multitarefa.

Nesse vai e vem, redes neurais que deveriam sustentar uma linha de raciocínio acabam “pulando” de estímulo em estímulo, como quem troca de canal. A agitação pode dar sensação de produtividade, mas não garante profundidade - e profundidade dificilmente convive com dezenas de abas abertas.

Um estudo clássico da Universidade de Stanford avaliou pessoas que se consideravam muito boas em multitarefa e encontrou o oposto do que elas esperavam: esse grupo teve desempenho pior em testes de atenção, memória e organização de informações do que participantes que realizavam uma atividade por vez. Em outras palavras, quem mais confia na própria capacidade de “dar conta de tudo” tende a ser mais vulnerável ao caos digital.

A comparação é simples: dirigir, acompanhar o GPS e ainda conversar já exige atenção; inserir uma distração extra aumenta a chance de erro. O cérebro não multiplica a atenção - ele a divide.

O “custo de troca”: a explicação neurológica para o cansaço do dia

Do ponto de vista neurológico, cada mudança de tarefa impõe um “custo de troca”. A cada alternância, o cérebro precisa desativar um conjunto de redes e ativar outro - um microprocesso que consome energia, tempo e glicose. Somadas ao longo do dia, dezenas (ou centenas) dessas trocas podem virar um cansaço desproporcional.

A região frontal do cérebro, associada a planejamento, tomada de decisão e controle de impulsos, tende a ficar sobrecarregada. Já a memória de trabalho - uma espécie de bloco de notas mental - pode entrar em congestionamento: informações chegam, se acumulam, se chocam e se perdem. Daí cenas comuns no cotidiano, como abrir o e-mail e esquecer por que aquela pasta foi acessada, ou pegar o celular e, segundos depois, não lembrar o que se pretendia fazer.

Sinais de saturação: quando a rotina fragmentada começa a pesar

Com o tempo, a ideia de “eu funciono melhor assim” começa a falhar. A mesma frase é lida várias vezes sem ser compreendida. O aplicativo do banco é aberto, duas mensagens são respondidas e, quando se percebe, a transferência não foi feita. Aparecem sinais discretos - e recorrentes - de saturação:

  • irritação com ruídos e interrupções pequenas;
  • dificuldade de concluir tarefas simples;
  • lapsos de memória que parecem inofensivos, mas preocupam;
  • sensação constante de atraso, mesmo sem uma urgência real.

O humor também é afetado. A fadiga não vem apenas do trabalho em si, mas do volume de microdecisões e microinterrupções que precisam ser administradas a todo momento - cenário familiar tanto em escritórios quanto no home office improvisado em muitas casas brasileiras.

Interrupções que custam caro: o foco não volta em “um minutinho”

Uma pesquisa da Universidade da Califórnia, em Irvine, estimou que trabalhadores demoravam, em média, 23 minutos para retomar completamente o foco após uma interrupção. Na prática, isso ajuda a explicar por que “dar só uma olhadinha no WhatsApp” várias vezes por hora cobra juros altos de atenção.

A cena se repete: alguém tenta escrever um e-mail importante, é chamado por um alerta do Teams, desvia para uma notícia, cai no Twitter, retorna ao e-mail e já perdeu o fio da ideia. Repetido diariamente, esse padrão mantém o cérebro em estado de alerta contínuo - como se atravessasse uma via movimentada sem semáforo. Ao fim do expediente, surge a frase: “Não sei por que estou tão cansado, nem fiz tanta coisa”. Fez - só que em pedaços.

Neurologistas descrevem esse cenário como um ambiente cognitivo hostil. A área do cérebro associada à recompensa passa a buscar estímulos cada vez mais rápidos, como notificações e atualizações. Em contraste, tarefas longas, que exigem paciência, passam a ser percebidas como pesadas e quase insuportáveis. Em paralelo, no eixo do estresse, hormônios como o cortisol tendem a permanecer elevados por mais tempo.

Com os meses, a fragmentação pode até distorcer a percepção do tempo: o dia parece escapar, como se tudo tivesse passado rápido demais. A explicação está nas memórias menos “profundas”: quando a mente não se fixa em nada por tempo suficiente, as lembranças ficam mais rasas e menos vívidas - e o dia vira um borrão.

Como reduzir danos em um mundo sempre online

Uma das formas mais diretas de proteger o cérebro começa com um gesto pouco confortável para a cultura do “sempre disponível”: escolher conscientemente uma única tarefa por um período fechado, de 25 a 40 minutos. Isso pode incluir ações simples, como silenciar notificações, deixar o celular virado para baixo e colocar o e-mail em modo silencioso. Algumas pessoas ganham foco com um documento em tela cheia; outras preferem um cronômetro. A consistência perfeita é rara, mas tentar algumas vezes por semana já costuma melhorar a clareza mental.

Há, porém, uma realidade que não pode ser ignorada: muita gente não tem como evitar o multitarefa. Professores em aulas remotas, mães e pais em home office com criança pequena, entregadores que precisam dirigir, acompanhar mapa e atender chamadas são empurrados para a alternância constante. Nesses casos, o objetivo não é exigir uma atenção impossível, mas diminuir o dano onde for viável.

Um erro frequente é pensar que, se não dá para fazer tudo do jeito ideal, então “tanto faz” abrir mais uma aba. Esse raciocínio acelera o esgotamento. Uma regra simples pode ajudar: evitar iniciar uma nova tarefa nos últimos cinco minutos da atividade atual. Finalizar, respirar e só então mudar de frente costuma liberar espaço mental.

“O cérebro é feito para alternar entre foco e descanso, não entre 20 focos simultâneos”, resume um neurocientista da USP ouvido pela reportagem.

Medidas práticas para recuperar atenção no dia a dia

  • Estabelecer janelas sem notificações para tarefas que exigem raciocínio.
  • Reservar horários específicos para responder mensagens e e-mails.
  • Evitar, ao menos em uma refeição do dia, comer, trabalhar e rolar o feed ao mesmo tempo.
  • Adotar listas curtas, com três prioridades reais, em vez de 20 intenções.
  • Fazer micro-pausas de 2 a 3 minutos sem tela - olhando pela janela ou caminhando.

Em um cotidiano acelerado, essas ações parecem pequenas. Mas funcionam como saídas de emergência para um cérebro pressionado por estímulos contínuos.

Mais do que produtividade: o que o debate revela sobre a vida moderna

À distância, a discussão sobre multitarefa pode soar como conversa de gestão do tempo. Na prática, ela toca em algo mais íntimo: a forma como as pessoas experimentam os próprios dias. Agenda cheia, celular sempre aceso e atenção repartida em “quadradinhos” criam uma rotina fragmentada - com poucas experiências longas o suficiente para virar uma lembrança forte.

A questão central talvez não seja se a multitarefa é boa ou ruim, mas quanto de fragmentação cada um aceita antes de sentir o peso: quando o sono desregula, quando o corpo reclama, quando a paciência vira escassa - ou quando ler mais de dez páginas de um livro começa a parecer difícil.

Em cafés, ônibus ou filas, a cena já é parte do cotidiano brasileiro: duas telas ao mesmo tempo, uma na mão e outra sobre a mesa, iluminadas pelo brilho azul. O desafio é olhar além do que parece normal e perguntar o que acontece “por dentro”. Em que momento o “dar conta de tudo” vira um processo silencioso de se perder de si mesmo?

Proteger o cérebro, nesse contexto, não significa virar um monge digital nem negar as exigências do trabalho. É, aos poucos, recuperar trechos de atenção inteira - e observar o que muda quando a mente, por alguns minutos, não precisa se repartir.

Principais pontos do tema

Ponto principal O que significa Por que importa
Multitarefa não é atenção dupla O cérebro alterna rapidamente entre atividades e paga um custo a cada troca Explica por que a sensação de produtividade nem sempre vira entrega real
Excesso de estímulos desgasta Interrupções frequentes afetam memória, humor e percepção do tempo Ajuda a identificar sinais de saturação antes de um esgotamento maior
Rotinas simples de foco funcionam Blocos de atenção única, menos notificações e pausas sem tela Oferece caminhos práticos para recuperar clareza e energia

FAQ

  • Pergunta 1 - Multitarefa deixa o cérebro “mais inteligente” com o tempo?
    Não. Pesquisas indicam o contrário: quem se divide entre muitas tarefas tende a ter pior desempenho em atenção e memória do que quem faz uma coisa por vez.

  • Pergunta 2 - Existem pessoas naturalmente boas em multitarefa?
    Há diferenças individuais de atenção, mas o limite neurológico se mantém: o cérebro humano não processa duas tarefas complexas simultaneamente; ele alterna entre elas.

  • Pergunta 3 - Usar redes sociais enquanto trabalho atrapalha tanto assim?
    Depende da frequência. Checar o feed “rapidinho” várias vezes por hora cria um padrão de interrupções que drena foco e energia ao longo do dia.

  • Pergunta 4 - Crianças sofrem mais com excesso de estímulos e tarefas?
    Sim. Um cérebro em desenvolvimento é mais sensível à atenção fragmentada e ao uso prolongado de telas com muitos estímulos.

  • Pergunta 5 - Dá para reverter anos de multitarefa intensa?
    Sim. Ao reduzir interrupções, criar blocos de foco e cuidar do sono, a tendência é que o cérebro recupere, gradualmente, concentração e clareza.

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