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O que realmente acontece com o corpo quando você bebe café logo ao acordar

Mulher em pijama segura xícara de café próximo a copo com limão e frasco de vitaminas sobre balcão iluminado.

Café logo ao acordar pode “enganar” o cérebro e cobrar a conta mais tarde, apontam especialistas

O alarme toca, a mão procura a cafeteira no escuro e, antes mesmo de o olho abrir direito, o cheiro do café já tomou a casa. Para muitos brasileiros, essa primeira xícara é o botão de “ligar” do dia - mas, por trás do ritual, o organismo ainda está ajustando hormônios e sistemas vitais. A cafeína até ajuda a espantar o sono, porém pode interferir nesse processo, aumentar a acidez no estômago e contribuir para uma queda de energia horas depois, dependendo do horário, da quantidade e do contexto.

O que acontece no corpo nas primeiras horas do dia

Ao despertar, o corpo passa por uma fase natural de ativação. Nessa transição, o cortisol - hormônio ligado a alerta, energia e foco - tende a subir de forma espontânea. Junto com isso, é comum haver leve aumento de frequência cardíaca, pequenos ajustes na pressão arterial e uma reorganização gradual da temperatura corporal.

Quando o café entra imediatamente nessa equação, a cafeína pode acelerar artificialmente o “arranque” da manhã. Em alguns casos, isso dá a sensação de produtividade imediata; em outros, gera um custo que aparece mais tarde, com oscilação de energia e desconfortos físicos.

“Sem café eu não funciono”: despertar ou aliviar abstinência?

A frase é repetida em escritórios, padarias e no transporte público - basta observar os copos térmicos e as filas cedo em cidades como São Paulo. O hábito, porém, pode esconder um mecanismo menos glamouroso: a reposição de cafeína após horas de jejum durante a noite.

Um estudo da Johns Hopkins indicou que, depois de alguns dias sem cafeína, o cérebro passa a operar em um nível diferente, “pedindo” uma nova dose para retornar ao que a pessoa percebe como normal. Na prática, em vez de ganhar um superpoder ao tomar café cedo, muita gente apenas interrompe sintomas de abstinência acumulados durante o sono.

Adenosina bloqueada agora, sonolência reforçada depois

A sensação de “acordar” com café tem uma explicação bem conhecida: a cafeína reduz a ação da adenosina, substância associada ao cansaço e à sonolência. O problema é que a adenosina não desaparece - ela continua circulando. Quando o efeito da cafeína passa, a sonolência pode voltar com força, contribuindo para aquela moleza típica do meio da tarde.

Em paralelo, tomar café com o estômago totalmente vazio tende a estimular a produção de ácido gástrico. Para quem convive com gastrite, refluxo ou maior sensibilidade intestinal, a combinação de cortisol alto, cafeína e acidez logo cedo pode agravar sintomas. O corpo costuma “segurar”, mas nem sempre sai ileso.

Ajustes simples no horário e no jeito de tomar podem reduzir efeitos indesejados

Uma estratégia frequentemente citada é adiar a primeira xícara entre 60 e 90 minutos após acordar. A ideia é permitir que o pico natural de cortisol faça parte do trabalho sozinho, antes de a cafeína entrar em cena. Nesse intervalo, medidas básicas - como beber água, fazer um alongamento leve e comer algo pequeno - podem ajudar a reduzir palpitações e a sensação de queda brusca de energia mais tarde.

Outro ponto prático é evitar café totalmente em jejum. Um alimento simples, como pão, fruta ou iogurte, já tende a diminuir o impacto da acidez no estômago.

Para algumas pessoas com ansiedade, o café muito cedo pode intensificar sinais como tremor nas mãos, batimentos acelerados e sensação de urgência. Nesses casos, começar o dia com hidratação e comida e deixar o café para depois pode mudar o tom da manhã.

“O problema não é o café em si, e sim o contexto em que ele entra no corpo”, resume a nutricionista fictícia Ana Leme, que diz acompanhar há anos pacientes presos à primeira xícara das 6h.

Medidas práticas para testar por alguns dias

  • Adiar o café do despertar: dá espaço para o cortisol subir naturalmente e pode diminuir a “montanha-russa” de energia.
  • Comer algo antes de beber: ajuda a proteger o estômago e pode suavizar o nervosismo.
  • Acompanhar sinais por uma semana: registrar sono, humor, foco e palpitações pode indicar seu limite com cafeína.
  • Evitar café no fim do dia: a cafeína pode permanecer ativa por 6 a 8 horas, prejudicando o sono sem que a pessoa perceba.
  • Reduzir gradualmente: cortar de uma vez costuma trazer dor de cabeça, irritação e aumento da vontade de café.

A primeira xícara também revela o ritmo de vida

Há um lado afetivo no café da manhã: memórias de família, a cozinha de casa, a padaria da esquina que já sabe o pedido. Ao mesmo tempo, uma rotina acelerada pode transformar o café em muleta para compensar noites ruins e excesso de tarefas: dormiu pouco, aumenta a dose; rendeu menos, repete a xícara.

Quando se observa com calma o que ocorre ao acordar - hormônios se ajustando, estômago vazio recebendo acidez, cérebro saindo da inércia - fica mais fácil entender por que alguns se sentem bem e outros passam o dia entre picos e quedas. Não há um único vilão, e sim uma combinação: horário, quantidade, alimentação, estresse e qualidade do sono entram juntos na conta. A discussão, portanto, pode ir além de “faz bem ou faz mal” para “como esse café se encaixa no meu cotidiano”.

Resumo dos pontos principais

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Efeito hormonal ao acordar A cafeína pode interferir no pico natural de cortisol no início da manhã Ajuda a escolher um horário que favoreça energia mais estável
Café em jejum Pode aumentar a acidez gástrica e intensificar ansiedade em algumas pessoas Explica por que comer algo antes pode reduzir desconfortos
Ritual que pode mascarar dependência Em muitos casos, o café serve para aliviar abstinência, não apenas “despertar” Incentiva uma relação mais consciente com o hábito

Perguntas e respostas

  • Beber café assim que acorda faz mal para todo mundo?
    Não necessariamente. Há quem tolere bem, enquanto outras pessoas sentem impacto maior no estômago, no coração e na ansiedade. Genética, dose e sono influenciam bastante.

  • Esperar cerca de uma hora muda algo de verdade?
    Em muitos casos, sim. Esse intervalo pode permitir que o cortisol suba naturalmente, reduzindo oscilações de energia e a sonolência forte mais tarde.

  • Café em jejum causa gastrite?
    Ele não costuma criar gastrite do zero, mas pode piorar sintomas em quem já tem irritação gástrica, refluxo ou estômago sensível por aumentar a acidez.

  • Descafeinado tem o mesmo efeito ao acordar?
    Não. Como contém bem menos cafeína, interfere menos em cortisol, adenosina e sono. Ainda assim, pode manter alguma acidez para quem tem sensibilidade.

  • Quantas xícaras por dia são consideradas seguras?
    Para adultos saudáveis, costuma-se mencionar até 3 a 4 xícaras médias ao dia, dependendo da sensibilidade individual. Se sono e humor piorarem, pode ser sinal de excesso.

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