Entre fevereiro e abril de 2026, o calendário católico volta a influenciar, ainda que de forma discreta, o que vai para a mesa de milhões de pessoas no Brasil e no mundo.
Ao contrário do que muita gente imagina, a Quaresma não exige 40 dias de restrição contínua na alimentação. Em 2026, as mudanças pedidas pela Igreja Católica se concentram em datas específicas - sobretudo duas de jejum e oito de abstinência de carne. Saber exatamente quais são esses dias ajuda famílias a se organizarem, evitar confusões no supermercado e viver o período com menos culpa e mais planejamento.
Calendário da Quaresma 2026: início, fim e a relação com a Páscoa
Em 2026, a Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas, 18 de fevereiro, e se estende até a noite da Quinta-feira Santa, 2 de abril. O período antecede a Páscoa, marcada para 5 de abril.
Na prática, a orientação não é “proibir tudo o tempo todo”, mas reservar momentos do calendário para atitudes concretas - como reduzir a quantidade de comida ou retirar a carne - com um sentido espiritual que acaba refletindo diretamente na rotina da cozinha.
Os fiéis não são orientados a fazer jejum durante 40 dias seguidos; a prática se concentra em alguns dias centrais da Quaresma, com jejum e abstinência de carne.
O que a Igreja orienta: jejum e abstinência, com regras definidas
Dois termos resumem as recomendações tradicionais para o período: jejum e abstinência.
Jejum: reduzir a alimentação, sem passar o dia inteiro sem comer
No rito católico atual, o jejum obrigatório aparece em dois dias de 2026:
- 18 de fevereiro (Quarta-feira de Cinzas)
- 3 de abril (Sexta-feira Santa)
A regra mais difundida não prevê “zero comida”. Em geral, fala-se em uma refeição completa no dia, com possibilidade de duas pequenas colações - desde que não equivalham a um segundo prato principal.
A disciplina costuma ser direcionada a adultos de 18 a 59 anos, em boas condições de saúde. Já idosos, gestantes, lactantes, adolescentes, pessoas com doenças crônicas ou quem realiza trabalho físico pesado normalmente é aconselhado a adaptar a prática - ou substituí-la por outra forma de renúncia.
Abstinência de carne: oito datas em que o cardápio muda
A abstinência é mais frequente no calendário. Em 2026, a orientação de evitar carne (vermelha e aves) aparece em oito dias:
| Data | Dia | Prática indicada |
|---|---|---|
| 18/02/2026 | Quarta-feira de Cinzas | Jejum + abstinência de carne |
| 20/02/2026 | Sexta-feira | Abstinência de carne |
| 27/02/2026 | Sexta-feira | Abstinência de carne |
| 06/03/2026 | Sexta-feira | Abstinência de carne |
| 13/03/2026 | Sexta-feira | Abstinência de carne |
| 20/03/2026 | Sexta-feira | Abstinência de carne |
| 27/03/2026 | Sexta-feira | Abstinência de carne |
| 03/04/2026 | Sexta-feira Santa | Jejum + abstinência de carne |
Nessas datas, a recomendação é deixar fora do prato carne bovina, suína, ovina, além de frango e outras aves, incluindo embutidos desses tipos. Em muitas tradições, peixes e frutos do mar são aceitos, assim como ovos, leite e derivados, legumes, verduras, grãos e leguminosas.
Para a Igreja, a abstinência vai além de “não comer carne”: ela serve como sinal de sobriedade e também de solidariedade com quem tem menos.
Como organizar refeições na Quaresma sem desequilibrar a dieta
Para muitas famílias brasileiras, o desafio não está na intenção religiosa, mas no cotidiano: o que preparar quando a carne sai de cena - especialmente em semanas corridas.
Alternativas práticas para os dias sem carne
Profissionais de nutrição costumam recomendar combinações simples que mantenham saciedade e bons nutrientes durante a abstinência, como:
- Peixes mais gordos (sardinha, salmão, cavala): fontes de ômega 3, funcionam assados, grelhados ou em ensopados.
- Leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha): ajudam com proteína vegetal e fibras.
- Cereais integrais (arroz integral, aveia, quinoa): contribuem para energia mais estável ao longo do dia.
- Ovos: viram omeletes, mexidos, fritatas e recheios de tortas salgadas.
- Verduras e legumes variados: crus, cozidos, assados ou grelhados, aumentam o volume do prato sem exagero de calorias.
Uma sexta-feira típica pode ser resolvida com arroz, feijão, legumes refogados e peixe. Outra opção é um prato único como massa integral com molho de tomate e lentilhas.
Planejamento para não ser pego de surpresa
Como as datas são fixas, muita gente prefere registrar os oito dias no calendário do celular ou num lembrete visível em casa. A medida evita situações comuns, como comprar frango para o jantar e lembrar só depois que é uma sexta-feira de abstinência.
Outra saída é adotar duas ou três receitas “coringa” sem carne - fáceis, acessíveis e aprovadas pela família - e repeti-las ao longo do período, reduzindo tempo na cozinha e o risco de improvisos.
Mais do que dieta: o sentido religioso por trás das escolhas
Na visão oficial da Igreja, a mudança no prato se conecta aos pilares tradicionais do período: oração, jejum e caridade. A ideia é que a restrição seja um estímulo para rever hábitos e olhar com mais atenção para a realidade de quem enfrenta insegurança alimentar.
Em diversas comunidades, há o incentivo para que a economia feita com refeições mais simples seja convertida em doações, cestas básicas ou apoio a projetos sociais.
Em muitas paróquias, a Sexta-feira Santa costuma reunir fiéis em vias-sacras, celebrações mais contidas e, em alguns lugares, refeições comunitárias simples, frequentemente com peixes, sopas e legumes, reforçando o clima de sobriedade.
Exceções previstas e a orientação do “bom senso”
A disciplina quaresmal não é tratada como regra inflexível. A Igreja admite ajustes em situações como doença, viagens longas, trabalho noturno, atividade braçal extenuante e condições de vulnerabilidade.
Quem não consegue jejuar por motivos de saúde ou rotina, em geral, é orientado a assumir renúncias alternativas - como reduzir tempo de tela, evitar álcool em dias específicos, controlar compras por impulso ou dedicar horários fixos a ações solidárias - desde que a escolha seja concreta e não coloque o bem-estar em risco.
O que muda, na prática, ao “comer diferente” em 2026
Na rotina da casa, as orientações costumam se traduzir em três movimentos principais:
- Comer menos em dois dias (Cinzas e Sexta-feira Santa).
- Trocar a carne por outras proteínas nas oito datas indicadas.
- Preferir preparos mais simples, com menor custo e menos excessos.
Em muitas famílias católicas, as sextas-feiras da Quaresma acabam virando o “dia do prato leve”, com caldos, sopas, peixe ensopado, saladas reforçadas e tortas de legumes - o que pode inclusive aliviar o orçamento em períodos de aperto.
Do ponto de vista de saúde, quem consome carne em excesso pode notar benefícios pontuais nesses dias, como digestão mais leve, maior ingestão de fibras e redução de gorduras saturadas, desde que a substituição não seja feita à base de frituras e doces.
E, mesmo para quem não é católico, conhecer o calendário ajuda na convivência: marcar um churrasco na Sexta-feira Santa, por exemplo, pode constranger convidados praticantes, enquanto um almoço com peixe ou massa simples costuma funcionar sem ruído em praticamente qualquer roda.
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