Num Japão que envelhece em ritmo acelerado, pesquisadores estão voltando a atenção para um fator discreto - e potencialmente decisivo - na saúde de quem já passou dos 65 anos: a condição da boca. Estudos recentes com dezenas de milhares de idosos japoneses indicam que dentes e gengivas não são apenas uma questão de estética ou conforto: eles se associam ao risco de morrer e, principalmente, à chance de manter autonomia ao longo do envelhecimento.
Estudos em larga escala ligam saúde bucal à mortalidade em idosos
A ideia de que a odontologia se limita a tratar dor, cárie ou aparência vem sendo contestada por grandes pesquisas de coorte no Japão. Em uma das análises mais robustas, cientistas da Universidade de Osaka avaliaram 190.282 adultos com mais de 75 anos, classificando dente a dente como saudável, restaurado, cariado ou ausente e acompanhando a ocorrência de óbitos ao longo do tempo.
O resultado foi consistente: quanto maior o número de dentes em bom estado - ou recuperados com restaurações - menor foi o risco de morte por todas as causas. Já pessoas com muitas cáries ativas ou perdas dentárias sem reposição adequada apresentaram mortalidade significativamente mais alta, mesmo após ajustes para fatores como idade, peso, uso de medicamentos e tabagismo.
Uma dentição preservada, com dentes saudáveis ou bem restaurados, aparece associada a menor mortalidade por todas as causas em pessoas acima de 75 anos.
Por que a boca pode influenciar o resto do corpo
Os cientistas apontam dois caminhos principais que ajudam a explicar a relação entre saúde bucal e longevidade: a inflamação persistente e a piora da alimentação.
- Inflamação crônica: cáries profundas, gengivites e periodontites podem liberar bactérias e mediadores inflamatórios na corrente sanguínea, com efeitos potenciais sobre coração, rins e cérebro.
- Nutrição prejudicada: quando faltam dentes funcionais, mastigar vira um desafio e muitos idosos passam a evitar carnes, frutas, verduras cruas e alimentos ricos em fibras.
Com o passar do tempo, a combinação desses fatores pode favorecer perda de massa muscular, fragilidade física, queda de imunidade e maior risco de infecções e internações.
Na prática, a condição da boca tende a refletir o nível de estresse do organismo como um todo.
Não é só quantos dentes: a funcionalidade pesa mais
Outra conclusão destacada nas pesquisas japonesas é que contar dentes, sozinho, pode ser insuficiente. O que melhor indica risco é a capacidade funcional da dentição - isto é, dentes que mastigam bem e não são foco ativo de infecção.
Uma análise publicada na revista BMC Oral Health comparou três formas de medir a relação entre dentes e mortalidade, com melhor desempenho para o modelo que soma dentes saudáveis e restaurados:
| Método | O que entra na conta | Capacidade de prever mortalidade |
|---|---|---|
| Modelo 1 | Apenas dentes totalmente saudáveis | Boa |
| Modelo 2 | Dentes saudáveis + dentes restaurados | Melhor desempenho |
| Modelo 3 | Inclui também dentes cariados | Pior precisão |
Na prática, o modelo mais confiável foi o que considerou dentes saudáveis e obturados (restaurados), sem “pontuar” dentes cariados. A leitura dos autores é que proteção não vem apenas de “ter dentes”, mas de ter dentes funcionais e livres de infecção ativa.
Os pesquisadores também observaram um padrão de “dose-resposta”: grupos com mais dentes funcionais - de zero até acima de 21 - apresentaram, gradualmente, menor risco de morte. A tendência se repetiu entre homens e mulheres.
Dentes restaurados também refletem acesso a cuidados e desigualdade
Além do aspecto biológico, as análises apontam para um componente social. Ter dentes restaurados costuma indicar acesso ao dentista, a tratamento e a informação em saúde. Já cáries não tratadas, perdas extensas e falta de próteses adequadas aparecem com mais frequência em contextos de vulnerabilidade socioeconômica.
Nessas pesquisas, a boca surge também como um marcador de cuidado em saúde ao longo da vida - e não apenas como uma estrutura do corpo.
Assim, quando a estatística mostra pior dentição ligada a maior mortalidade, ela pode estar revelando, ao mesmo tempo, histórico de barreiras de acesso à prevenção, a medicamentos, a alimentação de qualidade e ao acompanhamento médico.
“Fragilidade oral”: um sinal emergente do envelhecimento
Geriatras e pesquisadores também vêm ampliando o olhar: em vez de focar apenas em cáries, passaram a avaliar o conjunto de funções da boca em idosos, conceito conhecido como fragilidade oral.
Um estudo com mais de 11 mil japoneses com 65 anos ou mais, publicado na Geriatrics & Gerontology International, acompanhou os participantes por seis anos. A fragilidade oral foi identificada quando havia sinais como:
- dentes ausentes ou próteses mal ajustadas;
- dificuldade para mastigar alimentos mais firmes;
- problemas para engolir;
- boca seca persistente;
- fala prejudicada ou pior articulação de palavras.
Segundo os resultados, quem reunia três ou mais sintomas teve maior risco de perder autonomia e de morrer mais cedo. Aos 65 anos, homens sem fragilidade oral apresentaram expectativa de 23,4 anos de vida em boa saúde; entre aqueles com sinais orais de fragilidade, o número caiu para 22 anos. Entre mulheres, a diferença também ultrapassou um ano.
Consultar o dentista aparece como fator associado a maior proteção
Um dado que se destacou nos acompanhamentos: idosos que tinham ido ao dentista ao menos uma vez nos seis meses anteriores apresentaram melhor sobrevida e qualidade de vida, mesmo quando comparados a pessoas da mesma idade e com condições de saúde semelhantes.
Consultas regulares podem conter a perda de função oral e interromper uma cadeia de problemas ligados a desnutrição, infecções e perda de independência.
Na interpretação dos estudos, ações como ajustar próteses, tratar inflamações, recuperar dentes estratégicos e orientar higiene ajudam o idoso a manter uma alimentação mais variada, falar com clareza e seguir socialmente ativo - fatores que, em conjunto, se conectam à saúde geral.
O que muda na rotina: sinais de alerta e medidas possíveis
No dia a dia, a ligação entre boca e longevidade pode ser percebida em sinais que costumam passar despercebidos, como evitar carne por dificuldade de mastigar, trocar frutas por opções “mais fáceis”, preferir sempre alimentos pastosos ou sentir dor ao usar prótese.
Entre medidas simples que podem ter impacto real estão:
- ajustar ou substituir próteses que machucam;
- realizar limpezas profissionais periódicas, mesmo sem dor;
- tratar cáries iniciais antes de evoluírem para infecções;
- discutir com o dentista a recuperação de dentes-chave para mastigação;
- monitorar boca seca persistente, especialmente em quem usa muitos medicamentos.
Além de reduzir inflamação, essas medidas preservam força mastigatória e ajudam a manter ingestão adequada de proteínas, fibras e vitaminas. Em países que envelhecem rapidamente - como o Japão e, em ritmo crescente, o Brasil - esse cuidado tende a impactar também internações, quedas e custos em saúde.
Conceitos-chave: “mortalidade por todas as causas” e inflamação sistêmica
Dois termos aparecem com frequência nesse tipo de pesquisa:
- Mortalidade por todas as causas: é o risco de morrer por qualquer motivo, não apenas por uma doença específica. Se a saúde bucal altera essa taxa, o efeito sugerido é amplo, envolvendo vários sistemas do organismo.
- Inflamação sistêmica de baixo grau: descreve um estado de inflamação contínua, muitas vezes sem sintomas evidentes. Infecções bucais crônicas podem alimentar esse processo, associado a doenças cardiovasculares, demência e pior resposta a infecções respiratórias.
Para ilustrar, os estudos descrevem cenários como o de dois idosos de 78 anos com histórico médico parecido: um mantém 22 dentes saudáveis ou restaurados e faz consultas semestrais; o outro perdeu grande parte dos dentes, mastiga mal, come pouca proteína, sofre com boca seca e não acompanha a saúde bucal. Estatisticamente, o primeiro tende a acumular mais anos com autonomia, enquanto o segundo se aproxima de maior risco de quedas, internações e morte precoce.
Os pesquisadores também destacam o peso dos efeitos cumulativos: tabagismo, diabetes sem controle e sedentarismo, somados a infecções bucais, aumentam o risco de desfechos graves. No sentido oposto, higiene bucal, dieta variada, atividade física e acompanhamento de saúde formam uma combinação mais favorável para envelhecer com qualidade.
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