Com a chegada do frio, famílias buscam reduzir o gasto com lenha sem perder conforto
Quando as primeiras noites realmente geladas se instalam, o estalo da lenha vira trilha sonora de muitas casas - mas o preço do metro cúbico pode pesar no orçamento. Para quem depende de fogão a lenha, lareira fechada ou poêle, especialistas apontam que pequenas mudanças na escolha da madeira, na manutenção e no uso do equipamento conseguem cortar o consumo em “dezenas de por cento”, mantendo o ambiente aquecido e com menos fumaça.
A lógica é simples: com instalação bem regulada, lenha seca e uma casa minimamente vedada, a mesma sensação térmica pode ser alcançada queimando menos material - e com menor impacto na qualidade do ar.
Por que a lenha voltou a ganhar espaço
A alta dos custos de energia e do gás em diversos países recolocou a lenha no centro das alternativas de aquecimento doméstico, especialmente em áreas rurais e cidades menores. Nesses locais, fogões de sala, fogões a lenha tradicionais e poêles modernos seguem como peça-chave no inverno.
Ao mesmo tempo, a pressão por um uso mais racional da madeira aumentou, tanto pelo encarecimento do insumo quanto pelos efeitos da fumaça na saúde e no ar das comunidades. A boa notícia, segundo técnicos do setor, é que ajustes relativamente simples - do armazenamento da lenha ao jeito de acender o fogo - costumam trazer redução perceptível no consumo.
Lenha de qualidade: a economia começa antes de acender o fogo
A eficiência do aquecimento não depende só do aparelho: o tipo de madeira, o corte e, sobretudo, a umidade determinam quanto calor cada tora entrega.
- Dê preferência a madeiras mais densas (as “duras”), como carvalho, faia, freixo e eucalipto bem curado, ou equivalentes disponíveis na sua região.
- Evite lenha verde ou recém-cortada: uma parte grande da energia é gasta para evaporar água, e não para aquecer a casa.
- Procure lenha com menos de 20% de umidade, o que, em geral, exige 18 a 24 meses de secagem em local coberto e ventilado.
Além de render menos, a lenha úmida costuma produzir mais fumaça, escurecer o vidro do equipamento, sujar o duto e aumentar o risco de incêndio por acúmulo de fuligem. Já a madeira seca facilita o acendimento, melhora a queima e reduz emissões locais.
Manutenção e limpeza: duto sujo vira desperdício de lenha
Um erro comum, segundo profissionais da área, é subestimar a manutenção. Cinzas, fuligem e creosoto acumulados restringem a passagem de ar, prejudicam a tiragem e diminuem o rendimento do aparelho.
Itens que merecem rotina de revisão
- Ramonagem do duto ao menos uma vez por ano (ou duas, em caso de uso intenso).
- Remoção periódica de cinzas da câmara de combustão, preservando uma camada fina que ajuda a proteger o refratário.
- Checagem das vedações de portas e vidros: quando falham, o controle de ar se desregula.
Na prática, um equipamento antigo, mas bem limpo, pode aquecer melhor do que um modelo mais novo negligenciado. A sujeira funciona como um custo escondido em cada carga de lenha.
Controle de ar: o ajuste fino que define a eficiência da combustão
A regulagem da entrada de ar é o ponto central para gastar menos. Ar insuficiente sufoca a chama e gera queima incompleta; ar demais esfria a combustão e leva calor embora pela chaminé.
Sinais simples ajudam a identificar o que está acontecendo:
- Chama firme, amarelada e constante costuma indicar boa combustão.
- Fumaça densa e abundante na saída geralmente aponta ineficiência ou lenha úmida.
- Brasa que desaparece rápido pode sugerir excesso de ar, com válvulas abertas além do necessário.
A recomendação é adaptar o fluxo conforme a etapa do fogo - acendimento, chama forte e fase de brasas - porque esse ajuste está entre as formas mais baratas de reduzir o consumo.
Vedação e isolamento: sem isso, o calor “vaza” e a lenha vai embora
Mesmo o melhor poêle perde desempenho se a casa se comporta como uma “peneira térmica”. Boa parte da madeira queimada acaba compensando correntes de ar em janelas mal fechadas, portas sem borracha e coberturas sem isolamento.
Medidas simples que ajudam no dia a dia
- Aplicar veda-frestas em portas e janelas.
- Usar cortinas mais pesadas ou térmicas à noite.
- Colocar tapetes em pisos frios, principalmente sobre lajes sem isolamento.
- Isolar ou fechar áreas pouco utilizadas durante o inverno.
Essas ações não substituem um projeto profissional de isolamento, mas reduzem perdas e permitem operar com chama mais moderada - o que diminui o volume de lenha queimado.
Distribuição do calor: evitar a sala quente e o quarto gelado
Em muitas casas, o cômodo onde fica o aparelho fica superaquecido, enquanto os demais continuam frios. Para compensar, aumenta-se o fogo - e o consumo dispara.
Entre as soluções usadas para equilibrar a temperatura estão:
- Ventilador de poêle, instalado sobre o equipamento e alimentado pelo próprio calor.
- Repartidores de calor e dutos, que conduzem o ar aquecido para outros ambientes.
Quanto mais homogênea for a temperatura entre os cômodos, menor a tendência de “forçar” a queima só para tentar aquecer um quarto distante.
Acendimento “de cima para baixo”: menos fumaça e uso mais eficiente da madeira
O modo de iniciar o fogo influencia o gasto ao longo do dia. Uma técnica que vem ganhando espaço é o acendimento pelo topo (top-down), que tende a estabilizar melhor o calor e reduzir fumaça.
Passo a passo do acendimento pelo topo
- Coloque as toras maiores na base.
- Acima, arrume peças médias.
- No topo, deixe gravetos e acendalhos.
- Acenda por cima e feche a porta, ajustando o ar inicial.
Com o fogo descendo aos poucos, os gases liberados pela madeira são melhor aproveitados, o que costuma resultar em queima mais limpa e menor sujeira no sistema.
Trocar o equipamento pode reduzir o consumo - mas exige investimento
Aparelhos muito antigos frequentemente trabalham com eficiência baixa, por vezes perto de 50%, o que significa grande perda de energia pela chaminé. Já poêles modernos, inserts e modelos com dupla combustão podem ultrapassar 75% de rendimento.
| Tipo de aparelho | Rendimento típico | Efeito no consumo |
|---|---|---|
| Lareira aberta antiga | 30–40% | Consumo elevado e muito calor desperdiçado |
| Poêle antigo simples | 50–60% | Gasto intermediário e fumaça mais intensa |
| Poêle moderno/inserto | 75–85% | Menos lenha para o mesmo conforto térmico |
A substituição tem custo inicial, mas em regiões de inverno prolongado a economia acumulada ao longo dos anos pode compensar, além de melhorar a segurança e reduzir emissões.
Na prática, quanto dá para economizar em uma temporada?
Em um exemplo de referência, uma casa de 90 m² aquecida a lenha por quatro meses, com uso diário, pode consumir 10 a 12 m³ por temporada quando há instalação antiga, madeira úmida e pouca vedação.
Com lenha seca, aplicação de veda-frestas nas principais aberturas, acendimento pelo topo e limpeza anual do duto, esse total pode cair para 7 a 9 m³ sem perda perceptível de conforto. A troca por um aparelho moderno tende a reduzir ainda mais.
A economia, em geral, não vem de uma medida isolada, mas do efeito acumulado de várias melhorias pequenas.
Segurança e combinações: eficiência não pode aumentar riscos
Na busca por gastar menos, é preciso cuidado para não reduzir demais a entrada de ar na tentativa de “segurar” o fogo. O excesso de fechamento pode elevar a produção de fuligem e monóxido de carbono, tornando essencial manter boa ventilação, usar lenha seca e respeitar a regulagem adequada.
Também cresce o uso da lenha como complemento a outros sistemas, como bombas de calor e aquecedores elétricos em horários específicos. Nessa estratégia, o fogo entra em ação nas noites mais frias e aos fins de semana, ajudando a reduzir picos de consumo e oferecendo alguma autonomia em eventuais falhas de rede.
Para quem considera produzir a própria lenha, o planejamento precisa levar em conta ciclos longos. Espécies de crescimento rápido costumam gerar madeira mais leve e menos densa, exigindo maior volume para o mesmo calor. Uma alternativa é combinar espécies - alternando lenha densa e mais leve - para equilibrar facilidade de acendimento e duração das brasas.
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