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Miro 15 mil galettes”: veja como o vencedor da melhor galette de 2025 encara essa meta ousada para a Epifania

Padeiro preparando torta dourada em padaria com diversas assadeiras ao fundo.

Padeiro premiado em Paris se prepara para produzir 15 mil galettes des rois em dois meses

Em uma rua tranquila do 14º arrondissement de Paris, o padeiro francês Lionel Bonnamy entra no período mais intenso do ano: entre o início de janeiro e meados de fevereiro, ele pretende colocar na vitrine 15 mil galettes des rois - a tradicional torta folhada recheada com frangipane que domina as mesas francesas na época da Epifania. Vencedor do prêmio de melhor galette da Grande Paris em 2021 e novamente em 2025, Bonnamy tenta agora equilibrar demanda crescente e produção artesanal.

A meta, segundo ele, é atender ao aumento de procura sem transformar a operação em uma linha industrial. “Cada galette precisa responder a uma pergunta brutal: eu pagaria por isso?”, costuma dizer - e, se a resposta for negativa, o produto não chega ao balcão.

De padaria de bairro a referência na Grande Paris

A produção acontece na La Fabrique aux Gourmandises, que mantém aparência de padaria de bairro, mas virou destino obrigatório para fãs da galette des rois. Foi ali que a equipe comandada por Bonnamy conquistou duas vezes o título de melhor galette da Grande Paris, um feito considerado raro no circuito da confeitaria francesa.

Com a consagração mais recente, em 2025, a pressão aumentou: mais clientes passam a atravessar a cidade - e até vir de regiões vizinhas - em busca do doce, tratado por muitos como um ritual do começo do ano.

Uma operação planejada como “temporada” de campeonato

Para atingir o objetivo de 15 mil unidades, o trabalho começa semanas antes da Epifania, ainda em dezembro. A lógica é de planejamento rígido, com etapas antecipadas para reduzir gargalos quando a demanda atinge o pico.

As galettes representam cerca de 20% do faturamento anual da casa, superando até as vendas do período de Natal, o que ajuda a explicar o nível de organização adotado pela equipe.

Virada do ano com produção acelerada

Parte da massa folhada é preparada previamente, porcionada, embalada a vácuo e mantida em temperatura muito baixa, criando uma “reserva” para aguentar o início da temporada. Entre 29 e 30 de dezembro, o time entra na “primeira grande produção”, com aproximadamente 2.000 galettes assadas em dois dias.

No dia 1º de janeiro, a loja não abre - não como descanso, mas como estratégia para enfrentar o mês mais pesado do calendário. Bonnamy afirma que o resultado do período costuma se decidir no primeiro fim de semana de Epifania, quando a produção se aproxima de 3.000 unidades, com fornos funcionando sem parar e equipe em revezamento.

Produção em cadeia, com rodízio de tarefas

Apesar do volume, a preparação é dividida em etapas para manter padrão e reduzir falhas causadas pelo cansaço. Cada galette passa por cinco a seis pares de mãos antes de chegar à prateleira, e os profissionais alternam funções ao longo do dia.

As tarefas incluem:

  • corte e preparação das massas;
  • elaboração do recheio de frangipane;
  • fechamento e selagem das bordas;
  • aplicação da douragem e dos desenhos;
  • monitoramento exclusivo dos fornos.

Ingredientes selecionados: manteiga francesa e amêndoas moídas na hora

A padaria trabalha com uma lista enxuta, mas rigorosa, de matérias-primas: manteiga francesa, farinha Label Rouge de circuito curto e amêndoas inteiras vindas da Espanha, trituradas na própria casa para preservar aroma e frescor.

Bonnamy não utiliza corantes, conservantes nem aromas artificiais. Ele também evita elevar os preços apenas por causa dos prêmios, defendendo a ideia de “preço justo do trabalho” para manter o produto acessível a quem mora no bairro.

Massa folhada “invertida” para mais leveza e camadas definidas

Enquanto muitas padarias seguem o método clássico, Bonnamy adota o feuilletage inversé (massa folhada invertida). Em vez de colocar um bloco de manteiga dentro da massa, ele prepara um beurre manié (mistura de manteiga com farinha) que envolve a massa, o que tende a gerar um folhado mais “fundente”, com camadas mais marcadas e sensação de maior untuosidade.

Do preparo às dobras (“tours”)

Depois da sova, a massa descansa no frio para firmar a manteiga e relaxar o glúten. Em seguida, vem a sequência de dobras (tours): um tour inglês, dois duplos e um simples, sempre com pausas de repouso entre eles. Só após uma noite de descanso a massa é aberta em discos com espessura precisa, formando base e tampa.

Etapa Finalidade
Sova (petrissage) Misturar farinha, água e sal e preparar o beurre manié
Descanso no frio Firmar a manteiga e relaxar o glúten
Sequência de tours Criar as camadas do folhado
Abertura e corte Formar os discos (base e cobertura)

Frangipane e a “fava”: tradição no recheio

Com a massa pronta, entra o recheio: uma camada generosa de frangipane, feita a partir da combinação de creme de confeiteiro com baunilha e creme de amêndoas. É nessa fase que também se coloca a fava - peça tradicional, sempre produzida na França, escondida dentro do doce como parte da brincadeira.

Depois de recheada, a galette é fechada, tem as bordas seladas e recebe uma primeira camada de douragem com ovo. Em seguida, volta ao frio por cerca de 30 minutos. Só então a equipe aplica uma segunda douragem e desenha os arabescos com a ponta da faca - um acabamento que, além de identidade visual, ajuda a uniformizar o brilho e influencia a circulação de calor no forno.

Assar, aplicar xarope e chegar ao ponto

O tempo de forno é de pelo menos 54 minutos. Na fase final, uma calda leve é passada sobre a superfície para dar brilho discreto e ajudar na conservação. A galette retorna ao forno por mais alguns minutos, apenas para “secar” o xarope, e depois descansa sobre uma grade para perder umidade antes de ir para a vitrine.

Como comprar: datas, venda apenas na loja e preços

Quem quiser provar a galette campeã de Lionel Bonnamy pode visitar a La Fabrique aux Gourmandises entre 2 de janeiro e 15 de fevereiro. As vendas são exclusivamente presenciais, sem encomendas, medida adotada para manter o fluxo sob controle. A equipe afirma que busca produzir volume suficiente para reduzir frustrações de quem enfrenta fila.

Os tamanhos variam de porções para 2 a 10 pessoas. Os preços ficam em torno de 10 euros no menor formato e cerca de 40 euros no maior, voltado para famílias e grupos.

O que a rotina da padaria sugere para quem cozinha em casa

Mesmo para quem está no Brasil e não pretende viajar a Paris, o bastidor deixa duas lições práticas: organização e qualidade de insumos. Planejar compras, adiantar etapas e dividir tarefas muda o resultado tanto em uma padaria premiada quanto na preparação de um almoço de domingo. Já ingredientes como manteiga de boa qualidade, amêndoas frescas e farinha adequada costumam ter impacto mais decisivo do que “segredos” de técnica.

Para quem quiser tentar uma versão caseira, alguns pontos ajudam a ajustar expectativas:

  • usar massa folhada pronta reduz o trabalho, mas dá menos controle sobre as camadas;
  • tostar levemente as amêndoas antes de moer pode intensificar o aroma, desde que não queimem;
  • respeitar os intervalos na geladeira entre etapas diminui o risco de o recheio vazar.

Na França, a galette des rois simboliza o encerramento das festas de fim de ano e a chegada da Epifania, em um costume que lembra, em espírito, o bolo de Reis presente em algumas regiões do Brasil: uma sobremesa ligada à partilha e à brincadeira da “fava” escondida - motivo suficiente para muita gente encarar frio e fila para garantir a fatia do começo do ano.

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