Estudo reacende debate sobre o Homem Vitruviano e aponta cálculo rigoroso baseado no número 120
Um esboço renascentista feito por Leonardo da Vinci por volta de 1490 voltou ao centro das discussões acadêmicas após pesquisadores defenderem que o Homem Vitruviano não é apenas uma imagem icônica das proporções humanas, mas a expressão de um projeto geométrico cuidadosamente estruturado, sustentado por um sistema de medidas organizado em torno do número 120.
A conclusão aparece em uma análise publicada em 2026 na revista Arts et Sciences, que reconstitui a lógica do desenho e sugere que Leonardo teria encontrado uma saída matemática concreta para um problema descrito muitos séculos antes pelo arquiteto romano Vitruvius.
Um problema antigo: o corpo entre o círculo e o quadrado
A origem do desafio remonta ao século I a.C., quando Vitruvius, no tratado De Architectura, propôs que as proporções do corpo humano permitiriam encaixá-lo simultaneamente em um círculo e em um quadrado perfeitos.
No esquema descrito pelo romano:
- o umbigo funcionaria como o centro do círculo, que tocaria mãos e pés com o corpo estendido;
- o quadrado surgiria da equivalência entre altura e envergadura (distância entre as pontas dos dedos com os braços abertos).
O impasse, porém, está na geometria: ao colocar o círculo com centro no umbigo, o quadrado dificilmente compartilha o mesmo centro sem “forçar” o corpo para além de uma anatomia plausível. Durante muito tempo, o tema foi tratado mais como símbolo do que como equação. Na Idade Média, artistas privilegiaram leituras religiosas e filosóficas, e, mesmo no século XV, tentativas mais técnicas de resolver o desenho frequentemente resultavam em proporções estranhas ou membros deslocados.
O que a pesquisa de 2026 afirma ter encontrado
O estudo publicado em 2026 argumenta que Leonardo não teria apenas feito uma leitura intuitiva de Vitruvius. Em vez disso, os autores dizem ter identificado uma estrutura numérica consistente por trás do traço, alinhando manuscritos, tradições matemáticas antigas e estudos de proporção para defender que o desenho foi montado como uma solução deliberada - e não como improviso.
Segundo a análise, o Homem Vitruviano seria a parte visível de um cálculo “oculto”, organizado a partir de uma unidade comum: 120.
A decisão central: trocar o ponto de referência do círculo
A chave da proposta está na escolha do centro do círculo. Enquanto Vitruvius o posicionava no umbigo, Leonardo teria deslocado esse centro para o púbis - mudança que, de acordo com os pesquisadores, reorganiza toda a construção.
Na postura em que o corpo aparece com pernas afastadas e braços erguidos (uma posição descrita como “dinâmica”), a distribuição do peso se desloca para baixo, na região do quadril. Colocar o centro do círculo no púbis, diz o artigo, permite compatibilizar a abertura das pernas com uma figura estável e mais fiel ao corpo real, sem sacrificar a coerência geométrica.
Os autores aproximam essa decisão de princípios associados desde a Antiguidade a estudos sobre equilíbrio e centro de gravidade, vinculados a Arquimedes, reforçando a leitura de que Leonardo tratava o corpo como um sistema articulado - e não como uma forma rígida espremida em figuras abstratas.
Duas posturas sobrepostas para resolver duas exigências
A pesquisa sustenta que Leonardo sobrepôs duas configurações do corpo, cada uma atendendo a uma das formas geométricas:
- Postura “estática”: braços na horizontal e pernas juntas, ajustados ao quadrado;
- Postura “dinâmica”: braços elevados e pernas afastadas, ajustados ao círculo.
Na posição estática, a envergadura iguala a altura, viabilizando o quadrado perfeito. Já na posição dinâmica, a abertura das pernas e a alteração do centro tornam possível traçar um círculo sem deformar a anatomia. Ao separar, no desenho, as duas situações, Leonardo contornaria a contradição do texto de Vitruvius mantendo, ao mesmo tempo, consistência matemática e verossimilhança corporal.
Por que o número 120 estaria no “núcleo” do desenho
Um dos pontos mais destacados do trabalho é a identificação de uma malha de medidas baseada em 120 unidades, número que os autores consideram particularmente adequado por sua alta divisibilidade. Ele pode ser repartido por 2, 3, 4, 5, 6, 8, 10 e 12 sem exigir frações decimais - uma vantagem em um período anterior à padronização do sistema decimal como o usamos hoje.
A reconstrução sugere que Leonardo teria distribuído a altura do corpo em relações que se repetem em múltiplos ligados a esse total. Entre as medidas aproximadas citadas na análise estão:
- mão: 13 unidades;
- pé: 17 unidades;
- distância do púbis ao topo da cabeça: 60 unidades;
- metade do corpo: 60 unidades (por exemplo, da planta dos pés ao púbis, equilibrando a parte superior).
O artigo também aponta correspondências internas: comprimento do antebraço próximo ao do pé, relações proporcionais entre púbis e esterno e equivalências entre segmentos horizontais e verticais que obedeceriam à mesma lógica numérica. Nessa leitura, o corpo funcionaria como uma rede de frações do total de 120, com partes conectadas por proporções simples.
Contexto histórico: da base 60 aos pitagóricos
A preferência por números “cheios de divisores” tem raízes antigas. Babilônios e gregos operavam com facilidade em torno da base 60, que permanece no cotidiano - como nos 60 segundos de um minuto e nos 360 graus de um círculo. O 120, sendo o dobro de 60 e também o produto de 1×2×3×4×5, é apontado como um número prático para cálculos e repartições.
O estudo também relaciona essa organização à tradição pitagórica, que associava proporções numéricas a ideias de harmonia e ordem na natureza. A diferença, segundo os pesquisadores, seria a ênfase de Leonardo em testar tais relações no corpo observado.
Leonardo entre régua, compasso e dissecação
Para que um sistema proporcional não se afastasse demais do corpo real, Leonardo teria recorrido a observação direta. O texto lembra que ele realizou dissecações entre 1506 e 1513, analisando ossos, músculos e articulações e registrando medidas e relações entre segmentos.
Em anotações de seus cadernos, Leonardo questiona a confiança irrestrita em autoridades e defende a verificação empírica. Nesse enquadramento, o corpo deixa de ser um ideal abstrato e passa a ser objeto de estudo mensurável.
Tradições reunidas na construção do Homem Vitruviano
| Origem | Principal contribuição |
|---|---|
| Vitruvius | O problema do corpo inscrito no círculo e no quadrado |
| Euclides | Precisão nos traçados, axiomas e demonstrações geométricas |
| Arquimedes | Noções de equilíbrio e centro de gravidade |
| Pitagóricos | Harmonia expressa por números e proporções |
| Leonardo | Dissecação, medição anatômica e síntese prática |
O estudo afirma ainda que o desenho se apoia em eixos perpendiculares bem definidos, pontos de convergência calculados e ângulos retos alinhando regiões como cabeça, ombros, umbigo e quadril. Mesmo com a sobreposição de duas posturas, a figura se mantém “legível”, o que reforçaria a hipótese de controle geométrico intencional.
Por que essa leitura importa hoje
Embora pareça um debate restrito à história da arte e da ciência, os autores sustentam que a reconstituição tem implicações contemporâneas. Áreas como design, ergonomia, modelagem 3D e ensino de matemática podem se beneficiar ao entender como proporções foram formuladas e aplicadas antes de ferramentas digitais - algo próximo, por exemplo, do que hoje é feito em softwares de animação e estudos de postura.
Na educação, o uso do 120 como base é apontado como um recurso didático por facilitar exercícios com frações, escalas e proporções a partir de uma imagem popular: se a altura total equivale a 120 unidades, é possível estimar o tamanho de segmentos como pé e antebraço e verificar como essas relações se encaixam no desenho.
O artigo também ressalta um debate atual: o Homem Vitruviano não representa a diversidade de corpos, mas um modelo idealizado pensado como referência para projetos técnicos e arquitetônicos. Essa lógica de “medida padrão” ainda influencia objetos do cotidiano - de mobiliário a equipamentos esportivos - e levanta a pergunta sobre quais corpos são tomados como referência quando se transformam proporções em norma.
Por fim, em pesquisa aplicada, a ideia de um “sistema geométrico do corpo” pode inspirar simulações em biomecânica, testando em computador o impacto de pequenas mudanças de proporção sobre equilíbrio, alcance e esforço muscular - cenários que Leonardo só poderia explorar no papel.
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