França recebe novo pedido para mini-reator nuclear e acirra corrida por calor industrial de baixa emissão
Sob pressão para cortar emissões e substituir gás e carvão em processos pesados, a França registrou um novo pedido de autorização para um mini-reator nuclear - movimento que amplia a disputa interna entre startups e sinaliza uma guinada no modelo tradicional de energia atômica do país. O requerimento mais recente foi apresentado pela Stellaria em 22 de janeiro e se soma ao da Jimmy, protocolado em janeiro de 2024, o primeiro do tipo no território francês.
A novidade reforça a estratégia de usar SMRs (Small Modular Reactors) não apenas para eletricidade, mas sobretudo para fornecimento contínuo de calor a setores industriais difíceis de eletrificar - um tema que também interessa a países como o Brasil, onde segmentos como cimento, química e siderurgia buscam alternativas para descarbonizar sem depender exclusivamente de eletricidade.
Quem é a Stellaria e o que ela propõe
Fundada em 2022, a Stellaria nasceu a partir de pesquisas do Comissariado de Energia Atômica francês (CEA). A empresa pretende desenvolver um reator compacto e modular, voltado principalmente à produção de calor para a indústria.
Com uma equipe pequena - composta majoritariamente por físicos, engenheiros nucleares e especialistas em ciclo do combustível - a startup se apoia na proximidade com as plataformas experimentais do CEA, que reúnem décadas de estudos sobre reatores avançados, muitos ainda sem aplicação comercial.
Ao contrário de projetos do porte de um EPR, desenhados para abastecer grandes centros urbanos, a Stellaria mira um alvo mais específico: substituir caldeiras industriais que hoje queimam gás natural ou carvão em refinarias, fábricas e outros complexos intensivos em energia.
A proposta é transformar uma tecnologia avançada em um equipamento nuclear “padronizado”, pensado para instalação e operação com lógica industrial.
Segundo pedido em menos de dois anos indica mudança de rota
A França agora tem duas iniciativas privadas competindo diretamente por espaço regulatório e mercado no segmento de mini-reatores com foco em descarbonização industrial. Após a Jimmy abrir caminho com o primeiro pedido em janeiro de 2024, a Stellaria formalizou a solicitação em 22 de janeiro, elevando o nível da disputa tecnológica.
O efeito prático é a consolidação de um embrião de ecossistema francês de SMRs, com modelos diferentes tentando atender nichos variados - e com potencial de influenciar regras e padrões que podem se espalhar pela Europa.
Por que o novo projeto chama atenção
O reator da Stellaria, batizado de Stellarium, não é apenas uma versão “menor” de um reator tradicional. O desenho proposto é de geração IV, com sais fundidos e nêutrons rápidos - combinação rara até entre países com longa experiência nuclear.
Ao solicitar uma DAC (demanda de autorização de criação) para um conceito tão avançado, a empresa tenta garantir posição desde cedo no processo regulatório francês e, indiretamente, ganhar influência sobre a futura regulamentação europeia voltada a SMRs.
Stellarium: reator de sal fundido rompe com o padrão das usinas atuais
O Stellarium abandona o modelo dominante das grandes usinas, baseado em reatores a água pressurizada. Nesse conceito, o combustível nuclear é dissolvido em sais fundidos, que funcionam ao mesmo tempo como meio da reação de fissão e como fluido de resfriamento - ou seja, o núcleo deixa de ser sólido e passa a ser líquido.
Entre as consequências operacionais destacadas para essa arquitetura estão:
- temperaturas internas mais uniformes, o que tende a favorecer a estabilidade;
- redução de riscos associados a sistemas sob alta pressão;
- mudança do próprio sentido do cenário de “fusão do núcleo”, já que o combustível está naturalmente em estado líquido.
Na prática, o sistema opera como um grande volume de sal fundido radioativo, protegido por camadas de contenção e por trocadores de calor que transferem energia para circuitos secundários, até que o calor chegue ao cliente industrial.
Segurança “passiva” baseada em propriedades físicas
A Stellaria sustenta que parte relevante da segurança do Stellarium vem de mecanismos intrínsecos (passivos), nos quais o próprio comportamento físico do reator ajuda a reduzir a potência quando algo sai do esperado.
Segundo o conceito, se a temperatura aumentar além do normal, as reações tenderiam a diminuir devido a características do combustível e da geometria do núcleo, permitindo estabilização sem depender de comandos eletrônicos complexos ou sistemas ativos como bombas.
A empresa também aponta que os sais fundidos são incombustíveis, não produzem vapor explosivo e têm alta estabilidade química, o que pode reduzir a quantidade de cenários de acidente considerados pelo regulador.
Potência pensada para substituir caldeiras industriais
O projeto mira cerca de 40 megawatts térmicos (MWt). Para um sistema elétrico nacional, essa potência é modesta; porém, no universo de plantas industriais, ela se aproxima da faixa típica de uma caldeira de grande porte movida a gás ou carvão.
A ideia é usar o reator como fonte de calor constante para atividades como:
- indústria química;
- refinarias de petróleo;
- fábricas de cimento e cerâmica;
- produção de vidro e metais;
- geração de hidrogênio e combustíveis sintéticos.
No modelo proposto, a modularidade é central: componentes seriam fabricados em série e transportados ao local de instalação, reduzindo tempo de obra e o risco de atrasos - um ponto sensível no histórico recente de grandes projetos nucleares.
Protótipo em escala real como objetivo para cerca de 2030
O plano da Stellaria prevê um demonstrador operacional até o fim da década, por volta de 2030. A instalação serviria para comprovar desempenho, validar premissas de segurança, treinar equipes e dar confiança a reguladores e potenciais compradores industriais.
No setor nuclear, uma planta operando de forma estável por anos costuma ser decisiva para destravar investimentos, atrair parceiros e viabilizar negociações com regiões que possam sediar o projeto.
Corrida global por SMRs cresce e pressiona decisões na Europa
A movimentação francesa ocorre em um momento de intensa competição mundial por mini-reatores. Empresas e governos de Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e China avançam em diferentes rotas tecnológicas, incluindo reatores a gás de alta temperatura, sais fundidos, metais líquidos e versões reduzidas de projetos tradicionais.
Alguns exemplos frequentemente citados em discussões técnicas e regulatórias incluem:
| Projeto | País | Tecnologia | Uso principal |
|---|---|---|---|
| Stellarium (Stellaria) | França | Sais fundidos, nêutrons rápidos | Calor industrial |
| IMSR (Terrestrial Energy) | Canadá/EUA | Sais fundidos, combustível líquido | Eletricidade e calor |
| KP-FHR (Kairos Power) | EUA | Sais fundidos, combustível sólido | Eletricidade e hidrogênio |
| Xe-100 (X-energy) | EUA | Gás de alta temperatura | Eletricidade e processos industriais |
| CNNC HTGR / Linglong One | China | Gás de alta temperatura e PWR compacto | Eletricidade e calor |
À medida que outros países obtêm licenças e colocam demonstradores em operação, cresce a pressão por respostas mais rápidas dos reguladores franceses e europeus.
Pedido formal marca transição: de startup para operadora nuclear
Ao protocolar a DAC, a Stellaria entra em uma etapa que muda o patamar do projeto: deixa de ser apenas uma desenvolvedora de tecnologia e passa a buscar o reconhecimento como operadora nuclear, com obrigações rigorosas.
O processo exige demonstrar, entre outros pontos:
- integridade estrutural e barreiras de contenção;
- planos de emergência;
- estratégias para falhas e acidentes;
- plano de operação de longo prazo, incluindo gestão de resíduos e descomissionamento.
Para uma startup, a travessia para o universo regulado do setor nuclear tende a ser um salto raro em complexidade, custos e estrutura organizacional.
Benefícios apontados e dúvidas que permanecem
Defensores de SMRs destacam ganhos potenciais como redução rápida de emissões em setores industriais difíceis de descarbonizar, oferta estável de calor de alta temperatura, menor área ocupada do que grandes usinas e possibilidade de produção seriada.
Por outro lado, seguem em aberto questões como:
- o custo final do MW térmico frente a alternativas como gás natural e biomassa;
- como estruturar financiamento para diversos projetos de porte médio;
- como administrar resíduos em uma rede com reatores dispersos;
- como organizar segurança física e cibernética com mais instalações;
- o grau de aceitação social em regiões sem tradição nuclear.
Um dos testes centrais será demonstrar que muitos reatores pequenos podem manter níveis de segurança iguais ou superiores aos de poucos reatores grandes, considerando a multiplicação de rotinas de operação, vigilância e manutenção.
Glossário rápido
- SMR (Small Modular Reactor): reator de menor porte, em geral abaixo de 300 MW elétricos, desenhado para fabricação em série e montagem por módulos transportáveis.
- Reatores de geração IV: conceitos avançados que buscam maior eficiência, melhor aproveitamento do combustível, redução de resíduos de longa vida e, em muitos casos, mais segurança passiva.
- Sais fundidos: misturas que permanecem líquidas em altas temperaturas (como fluoretos e cloretos) e podem dissolver combustível nuclear, atuando também como refrigerante sem ferver como a água.
O que pode vir na década de 2030
Se os pedidos franceses forem aprovados e os protótipos cumprirem o que prometem, um cenário possível para os anos 2030 é a criação de “ilhas nucleares industriais”: complexos com um ou mais mini-reatores dedicados a um polo fabril.
Uma cimenteira, por exemplo, poderia firmar contrato de 20 a 30 anos para compra de calor contínuo, substituindo combustíveis fósseis por energia nuclear térmica - com investimento alto no início, mas amortizado ao longo de décadas e com menor exposição à volatilidade de preços.
Outra possibilidade é operar em conjunto com produção de hidrogênio por eletrólise quando a demanda térmica estiver menor, direcionando excedentes para um insumo de baixa emissão usado na indústria química ou como combustível em outras etapas da cadeia.
Com dois pedidos de autorização em curto intervalo, a França se coloca em um ponto simultaneamente estratégico e sensível: precisa equilibrar riscos e benefícios de uma tecnologia capaz de mudar sua tradição nuclear - e de redefinir o papel do átomo na rotina da indústria pesada.
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