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O desaparecimento das praias ameaça tanto a biodiversidade quanto as sociedades humanas

Biólogo mede uma tartaruga na praia ao pôr do sol, próximo ao mar e espreguiçadeiras.

Ondas seguem chegando e guarda-sóis continuam se espalhando pelas orlas, mas uma transformação silenciosa já altera o desenho do litoral: em muitas regiões, a faixa de areia está diminuindo - e, em alguns casos, desaparecendo. Impulsionado pela elevação do nível do mar, por tempestades mais intensas e por intervenções humanas que travam o movimento natural de sedimentos, o encolhimento das praias ameaça a biodiversidade marinha e afeta diretamente comunidades e economias que dependem do litoral para viver, trabalhar e se proteger de eventos extremos.

Praias em retração: o que está por trás da perda de areia

Pesquisadores alertam que, mantidas as tendências atuais, até 2100 o planeta pode perder ou ver recuar até metade de suas praias arenosas. O problema não se restringe a ilhas distantes: sinais do avanço do mar e da erosão já são observados em trechos costeiros da Austrália, Estados Unidos, México, China e também em países com forte dependência do turismo, como Gâmbia e Suriname.

Segundo cientistas, três fatores principais atuam em conjunto:

  • Aquecimento global: temperaturas mais altas aceleram o derretimento de gelo e elevam o nível do mar, que passa a ocupar áreas antes secas.
  • Erosão costeira: ondas mais energéticas, ressacas, tempestades e alterações nas correntes removem sedimentos da faixa de areia.
  • Urbanização: obras e infraestrutura rígida - como muros, calçadões, estradas e píeres - interrompem o transporte natural de sedimentos.

Embora pareça imóvel aos olhos de quem visita a orla, a praia funciona como um sistema dinâmico. Ventos levam areia das dunas para a faixa de praia; as ondas deslocam sedimentos para o fundo e, em condições diferentes, podem devolvê-los. Quando esse ciclo é bloqueado por estruturas de contenção, ocupação excessiva ou até por manejo inadequado, o equilíbrio se rompe.

Quando construções “tomam” o espaço da praia, ela perde capacidade de se recompor e passa a recuar pouco a pouco, em um processo contínuo.

Em destinos turísticos, uma prática frequente agrava o cenário: a retirada mecanizada de algas e matéria orgânica para deixar a areia com aparência “limpa”. Esse material, porém, sustenta organismos, ajuda a estabilizar sedimentos e integra a dinâmica natural do ecossistema. Ao removê-lo em excesso, a praia tende a ficar mais vulnerável e menos viva.

Consequências ambientais e prejuízos para a economia do litoral

Além de cartão-postal e área de lazer, praias desempenham funções ambientais essenciais: filtram poluentes, reciclam nutrientes, servem de abrigo e berçário para espécies e ajudam a proteger o continente contra tempestades. Com a redução da faixa arenosa, todo esse conjunto de serviços ecológicos entra em risco.

Estudos recentes apontam que uma parcela importante da biodiversidade se concentra logo após a arrebentação, na zona rasa submersa - justamente a área que recebe grande pressão de atividades humanas, como ancoragens, tráfego de embarcações, esportes aquáticos e turismo intenso. É ali que vivem peixes jovens, crustáceos, moluscos e inúmeros organismos pequenos que sustentam a cadeia alimentar marinha.

Em geral, quanto maior a ocupação humana e o adensamento de obras na orla, menores tendem a ser a biomassa e a diversidade de espécies - da areia ao fundo raso.

Entre os grupos mais afetados pela perda e degradação de habitat estão:

  • Tartarugas marinhas, que precisam de areia seca para fazer ninhos.
  • Aves costeiras, que se alimentam de invertebrados na faixa entre marés.
  • Crustáceos e vermes pequenos, que vivem enterrados e participam da reciclagem de matéria orgânica.

No bolso, o impacto pode ser imediato. Países e regiões que dependem de resorts e turismo de praia já projetam perdas de receita, postos de trabalho temporários e valorização imobiliária. Em comunidades tradicionais, como vilas pesqueiras, o recuo da areia coloca as ondas mais perto das casas, compromete infraestrutura simples e pode levar ao deslocamento de famílias.

A faixa de areia como barreira natural contra ressacas e tempestades

As praias também funcionam como um amortecedor natural diante de ressacas, marés de tempestade e ondas associadas a ciclones e furacões. Dunas bem conservadas, em especial, atuam como uma reserva de areia e uma proteção física entre o mar e áreas urbanas ou agrícolas.

Quando dunas são removidas ou rebaixadas para dar lugar a estacionamentos, avenidas e empreendimentos, a capacidade de proteção diminui. O resultado é a água alcançando ruas, casas e estruturas essenciais com maior frequência.

Elemento costeiro Função principal Efeito da destruição
Dunas Barram o avanço do mar e armazenam areia Mais alagamentos e erosão durante tempestades
Praia arenosa Dissipa a energia das ondas e abriga biodiversidade Ondas chegam com mais força às áreas construídas
Zona rasa submersa Berçário de espécies e reserva de sedimentos Queda de peixes e crustáceos e menor regeneração da praia

No Brasil, moradores de diferentes pontos do litoral têm relatado que “a maré está chegando mais perto” e que alagamentos antes raros passaram a ocorrer quase todos os anos - uma percepção que se conecta à perda do “colchão” natural formado por praia e dunas.

Estratégias em debate para conter o avanço do mar

Especialistas em gestão costeira defendem uma mudança de rumo na maneira como cidades planejam e ocupam suas orlas. Medidas emergenciais, como a engorda de praia (depósito de areia trazida de outro local), tendem a ser caras e durar pouco: sem correção das causas, a areia adicionada pode ser levada nas ressacas seguintes.

Tratar praia, dunas e a zona submersa como partes de um mesmo conjunto - o chamado “litoral ativo” - aumenta a chance de manter a costa funcional.

Entre as ações que vêm ganhando espaço em projetos ao redor do mundo estão:

  • Restringir novas construções em áreas vulneráveis e adotar recuo planejado de imóveis muito próximos do mar.
  • Recuperar dunas com vegetação nativa, cercamentos simples e controle de acesso de veículos.
  • Diminuir o uso de máquinas pesadas na limpeza da areia, priorizando manejo manual em áreas sensíveis.
  • Fiscalizar e limitar a extração de areia em rios e estuários, que abastecem naturalmente as praias.

Essas medidas tendem a funcionar melhor quando associadas à redução de emissões de gases de efeito estufa, já que a elevação do nível do mar acelera processos erosivos já em andamento.

Pressões menos visíveis: turismo, resíduos e estruturas na areia

Mesmo onde não há grandes obras, a presença constante de pessoas pode alterar o funcionamento da praia. Pisoteio em áreas de desova, tráfego de veículos na areia, barracas fixas, estruturas de concreto e iluminação noturna intensa interferem em ciclos naturais.

A poluição por plástico acrescenta outra camada de risco: além de contaminar, pode levar animais a ingerirem resíduos ao confundi-los com alimento e ainda cobrir ninhos com detritos. Somadas à perda física de areia, essas pressões aumentam o estresse sobre ecossistemas costeiros já fragilizados.

Termos-chave para entender o que os estudos estão mostrando

Alguns conceitos ajudam a interpretar melhor o avanço dessa crise:

  • Litoral ativo: faixa que reúne praia, dunas e a zona rasa submersa, operando como uma unidade interdependente. Se um componente é bloqueado ou eliminado, os demais tendem a perder estabilidade.
  • Retração costeira: deslocamento gradual da linha de costa em direção ao continente quando a erosão supera a reposição de sedimentos.

Para projetar cenários, pesquisadores utilizam simulações computacionais que combinam dados de marés, ventos, tipo de sedimento, uso do solo e diferentes projeções de aumento do nível do mar. Com isso, estimam onde a linha de praia pode estar em 20, 50 ou 80 anos. Em várias cidades, mapas já indicam bairros sujeitos a inundações futuras, o que pressiona governos a revisar licenças, obras e planos diretores.

Efeito dominó e saídas possíveis

Quando erosão, aquecimento global, planejamento urbano falho e turismo sem controle se acumulam no mesmo trecho de costa, os danos tendem a se amplificar. A perda de areia expõe construções; em resposta, surgem muros e contenções. Essas estruturas, por sua vez, refletem a força das ondas e podem acelerar a remoção de sedimentos. A biodiversidade cai, afetando a pesca artesanal e a segurança alimentar. E a economia local sente a redução do turismo justamente quando precisa investir mais em adaptação.

Ainda assim, experiências que mudaram essa lógica indicam que os ganhos também podem ser cumulativos. A retirada planejada de edificações em áreas de risco, combinada à restauração de dunas e à criação de zonas de proteção, tem reduzido danos de tempestades e ajudado a segurar a linha de costa por mais tempo. Em alguns trechos, a fauna retorna a áreas degradadas - e o turismo passa a se apoiar cada vez mais na conservação, não apenas no consumo da paisagem.

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