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O hábito silencioso que pode estar aumentando a sensação de cansaço mesmo após uma noite inteira de sono

Mulher deitada na cama à noite, usando o celular, com relógio digital na mesa marcando 00:00.

O despertador toca, você tem a impressão de ter dormido bem, mas levanta com o corpo pesado e a cabeça nublada - como se tivesse virado a noite diante do computador. Para muita gente, o café não resolve, o banho frio não desperta e o cansaço se arrasta no ônibus, no metrô ou no trânsito. Cada vez mais, especialistas apontam um culpado discreto: o uso constante de telas e estímulos digitais nas últimas horas do dia e nos primeiros minutos da manhã, um hábito que pode deixar o sono mais superficial e menos reparador, mesmo quando a pessoa passa 7 a 9 horas na cama.

Telas antes de dormir: por que o “sono de oito horas” não recupera

O problema nem sempre está na quantidade de horas dormidas, e sim no que acontece antes de deitar e logo após acordar. Embora muitas pessoas cumpram a meta popular de “oito horas”, elas ainda acordam irritadas, sem energia e com a sensação de que o descanso não fez efeito. Um fator frequente é manter o cérebro em alerta contínuo com notificações, luzes, notícias e discussões nas redes - especialmente à noite.

O padrão costuma ser parecido: a pessoa se deita e pega o celular “só para checar algo rápido”, mas acaba navegando por stories, vídeos curtos, uma polêmica no X, um e-mail atrasado, avisos do banco e mensagens do grupo da família. Quando percebe, quase 1 hora passou. Nesse intervalo, o cérebro recebeu luz azul e uma sequência de estímulos emocionais que aumentam o estado de vigilância.

O comportamento pode se repetir na madrugada, quando muita gente acorda e, no impulso, volta a olhar o aparelho. Pela manhã, antes mesmo de sair da cama, o celular reaparece - e, com ele, cobranças e comparações que colocam o corpo em modo de alerta logo cedo. Pesquisas recentes indicam que até 70% dos adultos checam o smartphone nos primeiros cinco minutos do dia.

O efeito em cadeia no corpo: sono mais raso, mais fome e mais irritação

Segundo especialistas, o prejuízo vai além do tempo de tela em si. O sono precisa de um período de desaceleração para que o organismo entre com mais consistência nas fases profundas - aquelas associadas à restauração do corpo, à consolidação de memórias e à “organização” do cérebro.

Quando o excesso de estímulos se aproxima do horário de dormir, esse processo tende a ser encurtado. O resultado pode ser um descanso fragmentado, com menos tempo nas etapas mais restauradoras. Na prática, isso costuma aparecer no dia seguinte como:

  • falta de energia logo cedo;
  • aumento da fome e da vontade de açúcar ao longo do dia;
  • maior irritabilidade e impaciência;
  • mais distração e dificuldade de foco.

Um neurologista ouvido pela reportagem resume o mecanismo: “Não é só a luz azul; é o tipo de atenção que o celular exige. Ele puxa o cérebro para o estado de vigília máxima justamente quando você mais precisa soltar o controle”.

Como reduzir o problema sem abandonar o celular

Especialistas destacam que não é necessário “virar monge digital” para ver melhora, mas sim estabelecer limites realistas e repetíveis. Uma medida considerada simples e eficaz é criar um “horário de desligamento” de telas - com pelo menos 60 minutos de antecedência em relação ao momento de dormir - e tratar essa faixa como compromisso inadiável.

Nesse período, a recomendação é trocar o feed por alternativas de menor estímulo, como leitura em livro físico, conversa leve, banho mais demorado e iluminação baixa, sinalizando ao cérebro que o dia está terminando.

Outra estratégia é preservar os primeiros 15 a 30 minutos após acordar. Em vez de começar o dia com notificações, vale priorizar água, respiração profunda, um alongamento curto e, se possível, o café da manhã sem telas.

A mudança, porém, costuma falhar quando vira uma lista rígida de metas. Tentar cortar telas, meditar 20 minutos, ler 30 páginas, dormir às 22h e acordar às 5h de uma vez tende a aumentar frustração e abandono do plano. A orientação mais sustentável é escolher um ponto de partida - como deixar o celular carregando fora do quarto ou programar o modo noturno automaticamente a partir das 22h. Um limite pequeno, mas bem cumprido, tende a ser mais efetivo do que várias metas perfeitas que duram poucos dias.

Medidas práticas que ajudam no dia a dia

  • Reduzir telas 60 minutos antes de dormir: diminui o nível de alerta e favorece o sono profundo.
  • Evitar celular na madrugada: reduz a chance de o cérebro “ligar” de novo no meio da noite.
  • Proteger o início da manhã: permite que o corpo desperte antes de encarar notícias, cobranças e comparações.
  • Usar luz amarela e atividades tranquilas à noite: reforça o sinal biológico de que o dia acabou.
  • Manter um mini-ritual repetível: cria uma associação entre certos hábitos e a hora de descansar.

O que muda quando o sono volta a ser reparador

Quando alguém consegue passar uma noite quase inteira sem telas, a transformação geralmente não é “mágica”, mas é nítida. Na manhã seguinte, a cabeça tende a ficar menos pesada, o café parece funcionar melhor e a paciência pode durar um pouco mais - no trânsito, no transporte público ou diante de uma planilha no trabalho. Em vez de milagre, é o corpo retomando a fisiologia do descanso.

Com o tempo, muitas pessoas percebem que a queixa não era apenas “dormir pouco”, e sim dormir com baixa qualidade. Há quem se sinta melhor com 7 horas bem dormidas do que com 9 horas fragmentadas, com mais entradas no sono profundo. Outros relatam menos vontade de açúcar à tarde, menos falhas de memória e menos explosões de irritação no ambiente de trabalho.

Um efeito descrito com frequência é o retorno do “silêncio interno”: não só o quarto mais calmo, mas a mente menos convocada por notificações e reações automáticas. No começo, esse vazio pode incomodar por expor preocupações antes abafadas pela distração constante. Ainda assim, é justamente nesse espaço que o descanso tende a acontecer com mais consistência - quando o cérebro deixa de correr atrás da próxima tela e volta a ter tempo para se reorganizar.

Resumo em pontos: o que observar e o que fazer

Ponto central O que acontece Por que isso importa
Exposição a telas à noite Luz azul e conteúdo estimulante mantêm o cérebro em alerta Explica por que o sono pode ser longo, mas pouco restaurador
Primeiros minutos do dia Checar o celular ao acordar aumenta estresse e ansiedade Ajuda a entender como proteger a manhã melhora energia e foco
Ajustes simples e consistentes 60 min sem telas antes de dormir + ritual matinal curto Mostra como sair do ciclo de cansaço crônico sem mudanças radicais

Perguntas e respostas

1) Se eu uso tela para relaxar, isso necessariamente piora meu sono?
Depende do horário e do nível de estímulo. O uso moderado mais cedo, com brilho reduzido, tende a pesar menos. Já o consumo intenso na última hora antes de dormir costuma atrapalhar mais, principalmente com muita luz e conteúdo que agita a mente.

2) Dormir com a TV ligada é pior do que dormir mexendo no celular?
Os dois podem prejudicar. A TV geralmente exige menos interação, o que pode ser um pouco menos estimulante, mas ainda produz luz e som. O celular, por ser interativo e cheio de notificações, costuma ser mais invasivo.

3) Filtro de luz azul e modo noturno resolvem?
Eles ajudam, mas não eliminam o problema. O filtro reduz parte do impacto luminoso, porém o cérebro segue recebendo informação, emoção e microestresse. O melhor resultado costuma vir da combinação entre filtro e limite de horário.

4) Quantas horas de sono um adulto precisa, em média?
A maioria funciona melhor entre 7 e 9 horas. Mais importante do que o número exato é acordar descansado, sem sensação diária de “ressaca mental”.

5) E quando o trabalho exige disponibilidade no celular até tarde?
Nesse cenário, a recomendação é negociar janelas de pausa real: períodos sem notificações antes de dormir e ao acordar, além de horários definidos para checar mensagens, evitando ficar em alerta contínuo.

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