No deserto dos EUA, a SpinLaunch testa “canhão” centrífugo que promete lançar satélites sem foguetes
No meio do deserto do Novo México, uma startup da Califórnia está desenvolvendo uma alternativa radical aos lançamentos espaciais tradicionais: um sistema centrífugo que arremessa pequenos satélites rumo à alta atmosfera usando energia mecânica - sem chamas, sem fumaça e sem a queima direta de grandes volumes de combustível na decolagem.
A empresa, a SpinLaunch, afirma que já demonstrou em testes suborbitais que o princípio funciona. A proposta é mudar a lógica dominante há mais de 50 anos - baseada em foguetes e combustão - e abrir caminho para lançamentos mais frequentes e, potencialmente, com menor impacto climático, dependendo da origem da eletricidade usada no processo.
Uma alternativa aos foguetes baseada em energia elétrica
Desde o início da era espacial, a forma mais comum de vencer a gravidade terrestre tem sido acelerar cargas ao espaço queimando enormes quantidades de propelente - normalmente querosene e oxigênio líquido - em estruturas com tanques gigantescos. O método levou missões à órbita, à Lua e a Marte, mas é caro e carrega um custo ambiental cada vez mais debatido.
A SpinLaunch propõe um caminho diferente: em vez de queimar combustível durante a subida, o sistema “acumula” energia previamente, na forma de rotação, e a libera de uma só vez no momento do disparo. A rotação é impulsionada por um motor elétrico, alimentado pela rede - o que abre a possibilidade de uso de fontes renováveis.
Como funciona o sistema centrífugo da SpinLaunch
O equipamento em testes lembra um grande disco vertical fechado. Dentro dele, um braço metálico atua como uma catapulta de alta velocidade, com a carga útil presa na extremidade. Para reduzir o atrito, a operação ocorre em uma câmara com vácuo parcial.
O processo, segundo a descrição do sistema, segue esta sequência:
- O ar é removido da câmara para formar um vácuo parcial.
- O braço começa a girar e aumenta progressivamente a velocidade.
- No momento programado, uma abertura do sistema se alinha com o braço.
- Um mecanismo solta a carga, que é lançada em direção ao céu.
A versão atual ainda não coloca objetos em órbita: os disparos realizados são suborbitais, voltados a testar materiais, eletrônica e a integridade estrutural do equipamento. O plano futuro informado pela empresa é construir uma versão maior, capaz de lançar projéteis que completariam a inserção orbital com um motor auxiliar pequeno - bem menor do que o primeiro estágio de um foguete convencional.
O obstáculo técnico: suportar acelerações de até 10.000 G
A principal exigência do método é extrema: as cargas lançadas enfrentam acelerações de até 10.000 vezes a gravidade da Terra. Em comparação, em foguetes tradicionais, passageiros e equipamentos costumam experimentar algo entre 3 e 5 G na maior parte do voo, podendo chegar a 8 ou 9 G em condições extremas.
Essa diferença impõe uma mudança profunda: muitos satélites atuais, projetados para acelerações muito menores, não resistiriam ao “tranco” do lançamento centrífugo, o que obriga a repensar o desenho das cargas úteis.
Satélites redesenhados para aguentar o “disparo”
Como forma de contornar o limite, a SpinLaunch trabalha com satélites próprios, menores e reforçados, com formato achatado - descritos como “discos” compactos. Cada unidade teria cerca de 2,3 metros de diâmetro e massa em torno de 70 kg, dimensionada para sobreviver às forças envolvidas e ainda operar em órbita.
Esse redesenho muda a lógica das constelações, com prioridade para:
- componentes mais resistentes, com menor chance de falha mecânica;
- eletrônicos encapsulados para suportar forças elevadas de compressão;
- estruturas simplificadas, com menos partes móveis;
- configurações voltadas à produção em série, em modelo semelhante ao de linha de montagem.
A ideia é lançar várias unidades empilhadas em um único módulo. Já em órbita, esse módulo liberaria cada satélite, que faria pequenos ajustes de trajetória para alcançar sua posição final. A proposta troca parte da flexibilidade de missão por repetibilidade, fabricação mais simples e redução de custo por unidade.
Promessa de até cinco lançamentos por dia e efeito na órbita baixa
Se a tecnologia chegar ao estágio operacional projetado, a SpinLaunch prevê uma cadência de até cinco lançamentos diários - um ritmo muito superior ao praticado hoje pelos principais foguetes comerciais. Isso pode alterar o mercado da órbita baixa, onde se concentram satélites de comunicação, internet via satélite e observação da Terra.
A empresa e estimativas iniciais citam um custo por quilograma entre US$ 1.250 e US$ 2.500. Embora ainda elevado, o patamar tende a ser competitivo em missões pequenas quando comparado a diversos sistemas baseados em foguetes químicos.
Entre os usos que poderiam se beneficiar de lançamentos mais frequentes estão:
| Aplicação | Possível ganho com alta cadência |
|---|---|
| Monitoramento climático | Troca rápida de satélites com defeito, reduzindo lacunas de cobertura |
| Internet via satélite | Atualizações mais ágeis de constelações e aumento de capacidade |
| Imagens de alta resolução | Constelações menores e mais densas, com maior frequência de revisita sobre grandes centros urbanos |
Para leitores no Brasil, onde aplicações de sensoriamento remoto são estratégicas para temas como desmatamento, agricultura e monitoramento de queimadas, a redução de custo e o aumento de frequência poderiam ampliar o acesso a dados - embora a adoção dependa de compatibilidade técnica e de mercado.
Ao mesmo tempo, mais satélites na órbita baixa aumentam preocupações já presentes no setor: risco de colisões, geração de lixo espacial, interferência em observações astronômicas e poluição luminosa.
Ganhos climáticos - e o limite ambiental da superlotação orbital
O fim da combustão direta durante a maior parte do “início” do lançamento é um argumento central da tecnologia. Sem queimar propelentes na subida como um foguete, o sistema evita emissões em camadas altas da atmosfera, onde certos poluentes podem permanecer por períodos longos. Se a eletricidade vier de fontes limpas, a pegada de carbono por lançamento pode cair de forma relevante.
Por outro lado, lançar mais objetos não elimina os riscos ambientais e operacionais no espaço. A ampliação de constelações exige regras rígidas de rastreamento, descarte e desorbitação ao fim da vida útil, já que colisões podem gerar nuvens de fragmentos e agravar a saturação da órbita baixa.
Conceitos-chave para entender a tecnologia
Dois termos ajudam a explicar por que o método exige satélites tão diferentes dos atuais:
- G (gravidade): medida de aceleração relativa à gravidade na superfície terrestre. Em 10.000 G, um objeto de 1 kg se comporta como se “pesasse” 10 toneladas sob essa aceleração.
- Lançamento suborbital: voo que ultrapassa a atmosfera, mas não alcança velocidade horizontal suficiente para permanecer em órbita; sobe, atinge um ponto máximo e retorna.
Esses fatores explicam por que satélites projetados para acelerações de dois ou três dígitos tendem a não ser compatíveis com um sistema que impõe acelerações de quatro dígitos.
O que pode vir pela frente: soluções híbridas e desafios de adoção
Um cenário considerado provável é o uso do sistema centrífugo como parte de uma arquitetura híbrida: a catapulta faria a “primeira etapa”, elevando a carga a grande altitude, e um motor menor (químico ou elétrico) realizaria a inserção e o ajuste fino da órbita. O objetivo seria reduzir drasticamente o tamanho do foguete necessário, cortando consumo de combustível e custos.
Outra possibilidade citada para o futuro envolve respostas rápidas a emergências: em tese, satélites temporários de comunicação poderiam ser lançados em poucas horas após desastres naturais para restabelecer conectividade básica. Nesse caso, o desafio seria equilibrar urgência com segurança orbital em um ambiente já congestionado.
No lado industrial, permanece a incerteza comercial: se o mercado não aderir a satélites ultrarreforçados - ou se a promessa de custos menores e lançamentos diários não se confirmar com estabilidade e confiabilidade - empresas podem resistir a redesenhar suas plataformas para se adequar ao perfil do “canhão” centrífugo.
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