No escuro absoluto do fundo do oceano, sob quilômetros de água salgada, cientistas encontraram sinais de vida onde quase ninguém procurava: vermes gigantes e outros organismos complexos vivendo abaixo do leito marinho, dentro da própria crosta oceânica, associados a fontes hidrotermais.
Pesquisadores que investigavam fontes hidrotermais em uma dorsal oceânica - cadeia montanhosa submersa formada onde placas tectônicas se afastam - se depararam com evidências de uma “camada de biomassa” subterrânea. O achado indica que a vida nas profundezas pode ser mais extensa e estruturada do que se supunha, indo além das comunidades visíveis ao redor das chaminés.
Pesquisadores identificam uma “camada de biomassa” sob o fundo oceânico, composta por organismos complexos, ligada às fontes hidrotermais.
Evidências de uma comunidade viva sob a crosta oceânica
A missão científica havia sido planejada para esclarecer como larvas pequenas colonizam chaminés hidrotermais - estruturas no assoalho oceânico por onde escapam fluidos aquecidos e ricos em minerais. No decorrer do trabalho, porém, surgiram indícios de animais muito maiores.
De acordo com a equipe, os sinais apontam para vermes de grande porte presentes não apenas sobre o fundo marinho, mas também alguns metros abaixo do sedimento, no interior da crosta. Em vez de um cinturão de vida restrito às chaminés, os dados sugerem uma faixa habitada escondida sob o “chão” do oceano.
Os animais lembram, em aparência e papel ecológico, espécies emblemáticas de fontes hidrotermais como Riftia pachyptila, conhecida no Pacífico. Esses vermes podem passar de 2 metros de comprimento e sobrevivem sem boca e sem um sistema digestivo típico, graças a bactérias simbióticas que convertem compostos químicos em energia.
Como larvas podem chegar ao subsolo do fundo do mar
A principal dúvida levantada pelo achado foi como esses animais teriam alcançado um ambiente subterrâneo. A explicação proposta no estudo se concentra na fase larval desses organismos.
Segundo a hipótese, larvas microscópicas que circulam próximas ao fundo podem ser puxadas para baixo pelos fluxos hidrotermais. A água aquecida que atravessa fraturas e poros das rochas funcionaria como um conjunto de passagens naturais, levando os organismos para o interior da crosta.
Nessas fendas, as larvas encontrariam condições propícias - temperatura intermediária, compostos químicos disponíveis e locais para fixação - permitindo crescimento e formação de colônias que não são detectadas por observações restritas à superfície.
Um ecossistema interligado entre água, sedimento e rocha
A descoberta reforça a ideia de que ambientes de grande profundidade operam como um sistema conectado, e não como compartimentos isolados. Os pesquisadores descrevem uma integração em três níveis:
- Coluna d’água, com plâncton, larvas e partículas em suspensão;
- Fundo marinho, onde se concentram comunidades ao redor das chaminés;
- Subsolo rochoso, agora indicado como habitat também de animais complexos.
A circulação de fluidos hidrotermais parece agir como uma ponte, conectando o mar aberto, o sedimento e o interior da crosta, em um circuito dinâmico de energia e matéria orgânica.
O que são fontes hidrotermais e por que elas sustentam vida
Fontes hidrotermais se formam em áreas de intensa atividade geológica, como dorsais oceânicas, onde o afastamento das placas favorece a subida de calor do interior da Terra. A água do mar penetra nas rochas, aquece, reage com minerais e retorna ao oceano carregada de substâncias como enxofre e metais.
| Componente | Papel nas fontes hidrotermais |
|---|---|
| Água do mar | Entra nas rochas, aquece, reage com minerais e volta como fluido quente |
| Magma | Fornece calor, elevando a temperatura dos fluidos a centenas de graus Celsius |
| Minerais | Enriquecem os fluidos com enxofre, metais e outros compostos |
| Microrganismos | Produzem biomassa por quimiossíntese, base da cadeia alimentar local |
Nesse ambiente sem luz solar, bactérias e arqueias usam quimiossíntese - um processo análogo à fotossíntese, mas alimentado por energia química - para gerar matéria orgânica. Animais como os vermes gigantes dependem diretamente dessas comunidades microbianas.
Uma “camada viva” escondida e novas perguntas para a ciência
Os dados reunidos sugerem a existência de uma zona biologicamente ativa logo abaixo do fundo oceânico, onde poros e fraturas na rocha funcionam como pequenas cavidades atravessadas por líquidos quentes e quimicamente ricos.
Até recentemente, essa região era vista principalmente como domínio de microrganismos. A indicação de vermes e outros invertebrados amplia o quadro e aponta para um ecossistema subterrâneo mais complexo, com diferentes níveis tróficos e interações ainda pouco descritas.
Entre as questões que passam a orientar novas pesquisas estão:
- Que espécies, de fato, compõem essa comunidade subterrânea?
- Como esses animais influenciam ciclos biogeoquímicos, como os do carbono e do enxofre?
- Qual parcela da biomassa marinha pode estar escondida sob a crosta oceânica?
Pressão da mineração em águas profundas preocupa pesquisadores
Enquanto a ciência tenta dimensionar essa biomassa oculta, cresce o interesse por mineração em alto-mar. Empresas e consórcios buscam metais e depósitos minerais em grandes profundidades, frequentemente em áreas próximas a sistemas hidrotermais.
A extração mineral em águas profundas pode destruir áreas que sequer foram totalmente descobertas, incluindo esse ecossistema subterrâneo recém-revelado.
Aparelhos de dragagem, perfuração e sucção podem fraturar a crosta, alterar o caminho dos fluidos hidrotermais e cobrir comunidades com sedimentos. Como a biomassa identificada estaria justamente sob a superfície do fundo, ela pode ser atingida de maneira direta.
Implicações para a busca de vida fora da Terra
Para os autores, as conclusões têm impacto além da oceanografia. Ambientes hidrotermais são considerados candidatos importantes na procura por vida em outros corpos do Sistema Solar.
Entre os alvos mais citados está Europa, lua de Júpiter que abriga um oceano global sob uma crosta de gelo. Modelos sugerem atividade geológica e a possibilidade de fontes hidrotermais no fundo desse oceano - um cenário comparável, em alguns aspectos, ao das profundezas terrestres.
A missão Europa Clipper, da Nasa, lançada recentemente, levará instrumentos capazes de investigar a composição química da superfície e da atmosfera de Europa. Indícios de compostos associados a atividade hidrotermal poderiam reforçar a hipótese de ambientes semelhantes - e até de camadas de biomassa - sob o gelo.
Glossário rápido dos termos mais usados
- Crosta oceânica: camada rígida e relativamente fina de rocha basáltica que forma o assoalho dos oceanos e recobre o manto terrestre.
- Larva: fase jovem de muitos animais marinhos, em geral microscópica e dispersa por correntes antes da fixação.
- Magma: rocha derretida no interior da Terra, fonte de calor que alimenta sistemas hidrotermais.
- Fonte hidrotermal: área do fundo do mar onde fluidos muito quentes, enriquecidos por minerais, emergem da crosta e sustentam ecossistemas específicos.
Próximos passos: entre risco ambiental e “laboratórios naturais”
Especialistas alertam que a expansão de atividades industriais em águas profundas, se ocorrer sem critérios rigorosos, pode causar perdas acumuladas e discretas: não apenas de espécies observáveis, mas também de comunidades enterradas cuja função ecológica ainda está sendo medida.
Com isso, avaliações de impacto começam a considerar não só o que está na superfície do fundo do mar, mas também o subsolo. A tendência é exigir monitoramento mais abrangente, mapeamentos geofísicos mais detalhados e regras mais restritivas para operações em áreas sensíveis.
Ao mesmo tempo, pesquisadores tratam essas regiões como “laboratórios naturais” capazes de ajudar a testar hipóteses sobre a origem da vida. Em laboratório, grupos simulam condições parecidas com as de fontes hidrotermais para observar reações que podem gerar moléculas orgânicas mais complexas.
Para o público, iniciativas de divulgação - como exposições e modelos tridimensionais do fundo oceânico - têm ajudado a traduzir um ambiente pouco familiar. A ideia de vermes gigantes crescendo dentro de rochas, aquecidos por calor subterrâneo e sustentados por bactérias, ainda soa como ficção científica. O que os dados indicam, porém, é que o oceano profundo segue revelando surpresas que desafiam a imaginação.
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