Nobel de Física Geoffrey Hinton se alinha a Musk e Gates e reforça alerta sobre um futuro com menos empregos
As previsões de Elon Musk e Bill Gates de que a inteligência artificial pode tornar o trabalho humano dispensável ganharam um novo endosso de peso: Geoffrey Hinton, um dos pioneiros da IA moderna e laureado com o Nobel de Física, passou a dizer publicamente que o emprego tradicional pode virar raridade - e não apenas porque máquinas assumirão tarefas repetitivas, mas porque boa parte das ocupações pode ser automatizada nas próximas décadas.
Hinton, que deixou o Google em 2023 para alertar sobre riscos ligados ao avanço da IA, afirma que a tecnologia caminha para substituir uma parcela enorme da força de trabalho, pressionando governos e empresas a reverem regras econômicas e sociais que hoje dependem do salário como principal fonte de renda.
Do discurso da semana reduzida ao temor de desemprego em larga escala
O debate se intensificou no ambiente de inovação da Califórnia em 2025, onde executivos e investidores projetam ganhos de produtividade com automação. De um lado, líderes como Jensen Huang, CEO da Nvidia, defendem um cenário em que a IA permitiria trabalhar menos dias por semana sem queda na produção. Do outro, cresce a avaliação de que a mudança pode ser muito mais profunda - e menos confortável.
Bill Gates tem repetido que “a maioria das tarefas” poderá ser realizada por sistemas inteligentes. Elon Musk, por sua vez, afirma que o trabalho humano pode se tornar opcional em cerca de 20 anos, ficando restrito a quem quiser trabalhar por escolha, e não por necessidade financeira.
O que antes soava como futurologia típica de eventos de tecnologia passou a ser tratado com mais seriedade após Hinton entrar na discussão. Na avaliação dele, não se trata de hipótese remota: é um desfecho plausível, coerente com a escala de investimentos já em curso na indústria.
Para Hinton, a IA não deve ficar limitada a funções simples: a tendência é atingir uma fatia gigantesca do mercado de trabalho, forçando uma reformulação do “contrato social” entre empresas, Estado e trabalhadores.
A conta dos investimentos bilionários e a pressão para cortar custos com pessoal
Hinton chama atenção para o incentivo econômico por trás da corrida por chips e data centers. Segundo ele, empresas como OpenAI, Google e Microsoft estão gastando valores enormes para treinar modelos cada vez mais avançados - e esse gasto precisa se traduzir em retorno.
Ele cita análises mencionadas por bancos como o HSBC segundo as quais a OpenAI pode demorar anos para atingir lucratividade, possivelmente apenas depois de 2030, mesmo contando com parcerias de grande porte.
Na leitura do pesquisador, a forma mais direta de “fechar a conta” é clara: vender IA como substituta de trabalhadores, reduzindo de modo agressivo a massa salarial.
O Nobel avalia que uma parte decisiva do retorno financeiro virá da comercialização de sistemas capazes de fazer o trabalho de equipes inteiras por uma fração do custo, provocando mudanças estruturais no emprego.
Hinton ressalta que não se trata apenas de automatizar funções já historicamente ameaçadas, como caixas e operadores de telemarketing. Com o avanço dos modelos generativos, áreas antes vistas como mais protegidas também passaram a entrar no radar.
Profissões na mira: do fast-food aos empregos qualificados
Nos Estados Unidos, parlamentares e economistas vêm quantificando o risco. O senador Bernie Sanders afirmou, em um documento divulgado em 2024, que até 100 milhões de postos de trabalho no país podem ser profundamente impactados ou eliminados pela IA ao longo dos próximos dez anos.
As frentes mais visíveis de substituição incluem:
- Redes de alimentação rápida, com quiosques, robôs de cozinha e caixas automáticos;
- Atendimento ao cliente, cada vez mais feito por chatbots e assistentes de voz;
- Suporte técnico, migrando para soluções automatizadas disponíveis 24 horas por dia.
A preocupação, porém, já alcança ocupações de maior qualificação. Ferramentas de contabilidade com IA, sistemas que geram código de software com pouca intervenção humana, triagem médica automatizada e assistentes virtuais para rotinas de enfermagem estão começando a ganhar escala.
O senador Mark Warner, também influente no Congresso americano, alerta especialmente para o impacto sobre jovens recém-formados. Ele afirma que o desemprego entre graduados pode chegar a 25% em dois ou três anos se não houver coordenação de transição, requalificação e políticas públicas.
Sanders argumenta que o trabalho vai além da renda: dá identidade, rotina e sensação de pertencimento - e retirar isso de milhões de pessoas sem um plano pode desencadear crises sociais graves.
“Trabalho opcional”: promessa de liberdade ou um período de instabilidade?
Quando Musk e Gates descrevem um futuro em que trabalhar seria uma escolha, o cenário pode parecer positivo: mais tempo para família, lazer e projetos criativos. Hinton e outros especialistas, no entanto, enxergam uma travessia turbulenta até qualquer arranjo mais estável.
Hoje, a maioria das pessoas depende de salário para pagar moradia, alimentação e transporte - uma realidade que também vale para o Brasil, onde grande parte do consumo das famílias é sustentado por renda do trabalho. Se essa renda encolhe, cresce o debate sobre alternativas como renda básica universal e tributação mais pesada de grandes empresas de tecnologia para financiar redes de proteção social.
Diversos especialistas projetam um período de décadas marcado por um modelo híbrido, com mudanças como:
| Aspecto | Tendência com IA |
|---|---|
| Carga horária | Redução em profissões de alta renda e aumento de pressão em setores pouco organizados |
| Segurança no emprego | Menor estabilidade, com contratos mais curtos e tarefas sob demanda |
| Qualificação | Atualização contínua deixa de ser diferencial e vira exigência |
| Bem-estar | Possível ganho de tempo livre, mas também maior ansiedade sobre renda e propósito |
Como se preparar para a IA: estratégias para não perder espaço
Apesar dos alertas, Hinton e outros pesquisadores não veem sinais de recuo. A IA já está incorporada a setores como bancos, saúde, educação, marketing e entretenimento, e o avanço é tratado como difícil de reverter. O foco, portanto, passa a ser adaptação - inclusive em países como o Brasil, onde a tecnologia chega tanto via grandes empresas quanto por ferramentas acessíveis a pequenos negócios.
Entre as medidas práticas mais citadas estão:
- Aprender a usar ferramentas de IA generativa como parte do trabalho, em vez de tentar competir com elas;
- Fortalecer habilidades humanas menos automatizáveis, como negociação, liderança e empatia;
- Buscar funções em que a IA atue como suporte, em tarefas de supervisão, curadoria e validação.
Relatos de empresas que adotam políticas internas de “IA para todos” apontam um padrão: quem domina essas ferramentas tende a ganhar valor, inclusive em áreas pressionadas. O maior risco recai sobre profissionais que permanecem em rotinas repetitivas e facilmente replicáveis por algoritmos.
Entenda dois termos centrais: “automação total” e “trabalho opcional”
As expressões “automação total” e “trabalho opcional” aparecem com frequência nas falas de Musk, Gates e Hinton. No debate, automação total não significa eliminar qualquer presença humana, mas sim transferir a maior parte do fluxo de uma atividade para sistemas autônomos, deixando pessoas para exceções e supervisão.
Já trabalho opcional não implica uma vida de lazer garantido para todos. A ideia pressupõe que, se governos e empresas criarem mecanismos de redistribuição da riqueza gerada pela IA, mais gente poderia escolher ocupações com significado - mesmo com remuneração menor - sem risco de colapso financeiro.
Três caminhos possíveis: do choque ao redesenho da rotina
Economistas têm trabalhado com três cenários principais para países que adotem IA em larga escala:
- Cenário de choque: empregos desaparecem rapidamente sem políticas de transição; desemprego, informalidade e desigualdade aumentam.
- Cenário de transição negociada: governos tributam ganhos da automação, financiam renda mínima e requalificação; o impacto existe, mas ocorre de forma mais gradual.
- Cenário de reinvenção: novas ocupações crescem em áreas como arte, cuidado, educação personalizada e projetos locais, apoiadas por parte da riqueza produzida pelas máquinas.
No cotidiano, isso pode se traduzir em cooperativas de cuidado a idosos, jovens dedicados a projetos criativos com bolsas financiadas por fundos ligados à tecnologia, ou contratos cada vez mais curtos - alternando períodos de emprego, estudo e descanso ao longo da vida.
O alerta central de Hinton é que confiar apenas no ajuste pelo mercado pode ser um erro. Sem debate público, regras claras e preparação educacional, a promessa de mais tempo livre pode acabar se convertendo em mais tempo ocioso e menos renda - especialmente para quem já começa em desvantagem.
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