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Supermercados: o que está por trás da estratégia de reorganizar constantemente as prateleiras?

Pessoa fazendo compras em supermercado, empurrando carrinho entre prateleiras com produtos e vegetais frescos.

Você entra no supermercado achando que resolve tudo em 15 minutos. Alguns corredores depois, porém, o café já não está onde costumava ficar, as embalagens parecem diferentes e a sensação é de que a loja foi “embaralhada” da noite para o dia. A explicação, na maioria das vezes, não tem nada a ver com falha de memória: mudar produtos de lugar é uma tática planejada para influenciar o trajeto do cliente, aumentar compras fora da lista e, no fim, elevar o valor da conta.

Mudanças no layout: estratégia para fazer o cliente circular mais

Quem compra sempre na mesma rede costuma perceber o padrão: numa semana o café está perto do açúcar; na outra, aparece ao lado dos biscoitos. Esse desconforto é parte de uma lógica do varejo conhecida como gestão de fluxo.

Ao quebrar a rotina do consumidor, o supermercado tende a alongar o tempo de permanência na loja e ampliar as chances de o cliente levar itens que não tinha planejado. O caminho deixa de ser apenas funcional e passa a funcionar como um roteiro cheio de estímulos.

Relatórios internos de redes e análises de consultorias do setor apontam que uma parcela relevante do faturamento vem dos chamados “itens de impulso” - produtos que entram no carrinho sem terem sido anotados na lista. Reorganizar corredores, nesse contexto, é uma forma de aumentar justamente esse tipo de compra rápida.

Ao tirar o cliente do “piloto automático”, a loja cria mais oportunidades para decisões não planejadas.

Onde a “bagunça” vira dinheiro: zonas quentes, frias e pontos extras

Na operação do dia a dia, times de merchandising monitoram como as pessoas se movem: onde o cliente costuma desacelerar, quais prateleiras recebem mais toque e em quais trechos o olhar se fixa. Com esses dados, o espaço é redesenhado com áreas de maior e menor potencial de venda:

  • Zonas quentes: locais com grande circulação, como entrada, fim de corredores e entorno dos caixas;
  • Zonas frias: cantos menos acessados, fundo da loja e prateleiras muito altas ou muito baixas;
  • Pontos extras: ilhas, pontas de gôndola e displays fora da prateleira principal.

A troca de produtos entre essas áreas costuma ter metas bem objetivas: dar destaque a itens com maior margem, acelerar a saída de estoque parado, impulsionar novidades e conduzir o fluxo para corredores específicos.

Quando um item “desaparece” do lugar habitual, frequentemente ele só foi deslocado para disputar atenção com outros produtos mais estratégicos para a rede.

Regras sanitárias e pressão por escolhas mais saudáveis também mudam as prateleiras

Nem toda mudança nasce apenas de decisões comerciais. Reguladores em diferentes países - com destaque para regras mais rígidas em nações europeias - vêm restringindo a exposição de produtos com muito açúcar, sal e gordura, principalmente em áreas sensíveis como as filas do caixa.

Essas limitações forçam redes a rever o desenho das lojas. Chocolates e salgadinhos, por exemplo, podem perder espaço em pontos privilegiados, desencadeando uma reorganização em cadeia. Ao mesmo tempo, itens vistos como mais saudáveis passam a ganhar posições mais visíveis.

O movimento acompanha uma tendência descrita no setor como “comércio responsável”, com pressão de governos, entidades de saúde e até investidores para que o varejo alimentar não estimule o consumo de ultraprocessados a cada passo.

A remodelação do ambiente de compra também responde à cobrança por lojas que não empurrem excessos o tempo todo.

Lançamentos ganham holofote - e isso mexe no mapa da loja

Outro fator recorrente é a chegada de produtos novos. Lançamentos como snacks, bebidas vegetais, versões “zero açúcar” e linhas premium raramente entram discretamente: costumam vir acompanhados de ajustes no corredor para garantir visibilidade.

Além disso, marcas pagam por espaços disputados, como pontas de gôndola e displays temporários. Na prática, a loja vira um tabuleiro de negociações comerciais com contratos, metas e bonificações - enquanto o consumidor enxerga apenas a aparente “bagunça” no caminho.

Estoque, validade e redução de desperdício influenciam a troca de lugares

A gestão de estoque também ajuda a explicar por que itens mudam de posição. Produtos próximos do vencimento não podem ficar esquecidos no fundo da prateleira: para evitar perdas, eles são trazidos para a frente ou deslocados para áreas mais visíveis, muitas vezes com desconto.

Objetivo da mudança O que o mercado faz Efeito esperado
Evitar vencimento Coloca itens perto da data em pontos de destaque Venda mais rápida e menor perda
Renovar sortimento Retira produtos de baixa saída de áreas nobres Abrir espaço para itens mais rentáveis
Campanhas sazonais Agrupa produtos de datas específicas (Páscoa, festas juninas) Aumentar o ticket médio da ocasião

Esse tipo de prática costuma ser ligado a metas de combate ao desperdício alimentar, frequentemente divulgadas por grandes redes. A reorganização vira, ao mesmo tempo, ferramenta para escoar mercadorias e reduzir prejuízos.

Dar destaque ao que está perto do vencimento diminui perdas financeiras e também o impacto ambiental do descarte.

Como a reorganização afeta seu jeito de comprar - e o seu orçamento

A mudança constante no layout mexe com três gatilhos psicológicos centrais: hábito, atenção e sensação de urgência. Quando a rota automática é interrompida, o cliente precisa prestar mais atenção ao ambiente, e essa atenção extra abre espaço para ações de marketing.

Com o trajeto mais longo, surgem tentações: um sabor novo de biscoito, uma bebida diferente, uma promoção montada bem na curva de um corredor. A lista deixa de ser um roteiro rígido e passa a funcionar como referência flexível.

Também entra em cena o efeito do “já que estou aqui”. Ao parar em corredores que normalmente seriam ignorados, cresce a chance de colocar no carrinho algo “para experimentar” ou “para garantir em casa”. Somada ao longo das semanas, essa dinâmica pesa no orçamento - especialmente em tempos em que a ida ao mercado no Brasil já costuma exigir planejamento.

Medidas simples para reduzir compras por impulso

Sem precisar abandonar o supermercado do bairro, é possível diminuir o impacto dessas estratégias com atitudes práticas:

  • Organizar a lista por categorias (hortifruti, limpeza, laticínios);
  • Definir um teto de gasto antes de entrar e acompanhar o total durante as compras;
  • Evitar circular sem objetivo por corredores fora da lista;
  • Deixar lançamentos e “novidades” para depois de pegar o essencial.

Outra forma de se proteger é observar os padrões da loja. Quando o consumidor identifica que certos itens mudam de lugar com frequência, fica mais fácil perceber quando a troca foi feita para estimular impulso - e não para facilitar a compra.

Termos-chave para entender por que a loja muda tanto

Dois conceitos aparecem com frequência nas discussões sobre organização de supermercado:

  • Gôndola: é a estrutura de prateleiras onde fica a maior parte dos produtos. A posição - e a altura - de cada item tem peso nas negociações entre indústria e varejo.
  • Sortimento: é o conjunto de produtos que a loja decide oferecer em cada categoria. Quando entram novas marcas, mudam tamanhos ou crescem linhas “mais saudáveis”, a gôndola precisa ser redesenhada, e a sensação de mudança se espalha.

No fim, esses ajustes se acumulam: corredores reorganizados para favorecer itens mais lucrativos, regras que empurram ultraprocessados para áreas menos nobres e iniciativas contra desperdício acabam criando uma experiência de compra bem diferente da de alguns anos atrás.

Para quem vive com o orçamento apertado, vale comparar cenários: quanto se gasta seguindo estritamente a lista e quanto a conta aumenta quando se “deixa levar” pela nova disposição. Em muitos casos, a diferença em um mês pode equivaler a uma conta doméstica ou à compra maior de proteína.

Também é útil reparar nos dias em que o supermercado parece estar em “obra silenciosa”, com paletes no meio dos corredores e funcionários trocando etiquetas. Muitas vezes, é justamente ali que uma nova estratégia começa a operar - alterando como o cliente vê, escolhe e paga pelos mesmos produtos de sempre.

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