No alto da atmosfera, uma nova corrida pela conectividade começa a ganhar forma: dirigíveis solares e drones autônomos operando na estratosfera passam a competir - e, em muitos casos, a complementar - as grandes constelações de satélites na missão de levar internet a quem ainda está fora da rede.
Apesar de milhares de satélites já circularem em órbita baixa, a universalização do acesso continua longe. Dados recentes da União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência vinculada à ONU, indicam que quase um quarto da população mundial permanece desconectada ou depende de serviços instáveis, caros e de baixa qualidade - um gargalo que pesa especialmente sobre países em desenvolvimento.
Quase 1 em cada 4 pessoas segue sem internet confiável
A desigualdade de acesso à internet se concentra em locais onde a infraestrutura tradicional custa caro e rende pouco: áreas rurais, regiões montanhosas, desertos, florestas e ilhas. Nessas condições, a expansão de fibra óptica ou de redes móveis convencionais muitas vezes não compensa o investimento, deixando comunidades fora da economia digital.
Nesse contexto, a chamada “internet estratosférica” surge como uma terceira alternativa: nem cabos no solo, nem satélites no espaço - mas antenas instaladas em plataformas que flutuam acima das nuvens. A proposta mira, ao mesmo tempo, três problemas recorrentes: o preço elevado da cobertura por satélite, as restrições de capacidade quando muitos usuários compartilham o mesmo feixe e a dificuldade de tornar a conexão financeiramente acessível para milhões de famílias.
O que é a internet estratosférica e por que ela chama atenção
O modelo se baseia em HAPS (High Altitude Platform Stations), ou estações de plataforma em grande altitude. Na prática, são “torres” de telecomunicações suspensas na estratosfera, operando entre 18 km e 25 km de altitude - uma faixa bem acima das rotas usuais da aviação comercial.
Essas plataformas podem ser implementadas de diferentes maneiras, incluindo:
- dirigíveis cheios de hélio revestidos com painéis solares
- balões de alta altitude com equipamentos de comunicação embarcados
- drones solares de grande envergadura capazes de voar de forma autônoma por semanas
- aeronaves não tripuladas alimentadas por hidrogênio ou baterias de última geração
A principal vantagem técnica, em comparação com satélites que operam a cerca de 500 km de altitude ou mais, é a distância muito menor até o usuário. Isso tende a derrubar a latência - o tempo de ida e volta do sinal -, algo crucial para chamadas de vídeo, jogos online, telemedicina, cirurgias remotas e aplicações industriais sensíveis a atrasos.
Como ficam “pairando” sobre uma mesma área por longos períodos, as plataformas podem cobrir centenas de milhares de quilômetros quadrados, com a possibilidade de ajustar a oferta de banda conforme a demanda - reforçando regiões mais populosas ou horários de pico.
Painéis solares e longos períodos no ar para reduzir custos
A maior parte das iniciativas em teste aposta em energia solar combinada a baterias de alta densidade. Na estratosfera, a incidência de luz é mais constante por estar acima das nuvens, o que favorece a geração durante o dia; à noite, a operação continua com energia armazenada.
A meta é manter esses equipamentos no ar por semanas ou até meses, limitando pousos e manutenções. A comparação é direta com a infraestrutura espacial: satélites dependem de lançamentos caros e de componentes preparados para o ambiente hostil do espaço.
De Loon a Starlink: a disputa por conectividade muda de altitude
A ideia de usar balões e aeronaves para levar internet não é nova. O projeto Loon, da Alphabet (controladora do Google), chegou a operar comercialmente em alguns países da América Latina e da África, mas foi encerrado em 2021 após enfrentar barreiras técnicas e financeiras.
Na prática, manter um balão na mesma região, lidar com ventos intensos, controlar subidas e descidas e organizar o resgate do equipamento se mostrou mais caro e complicado do que o esperado. Paralelamente, as constelações de satélites em órbita baixa cresceram rapidamente, puxando o mercado para soluções espaciais como Starlink e OneWeb.
Três iniciativas que hoje ganham atenção de operadoras e reguladores
Nos últimos anos, novos projetos voltaram a colocar a estratosfera no radar. Entre os principais nomes citados estão:
| Empresa | Tipo de plataforma | Principal foco/diferencial |
|---|---|---|
| Sceye (EUA) | Dirigível solar com hélio | Estabilidade de posição e cobertura contínua |
| Aalto HAPS (grupo Airbus) | Drone solar Zephyr | Recorde de permanência no ar por até 67 dias |
| World Mobile (Reino Unido) | Drone movido a hidrogênio | Até 200 Mbps com custo muito baixo por usuário |
A World Mobile, por exemplo, estima que nove plataformas estratosféricas poderiam atender os 5,5 milhões de habitantes da Escócia com internet de alta velocidade. A empresa projeta um custo aproximado de 80 centavos por pessoa ao mês - um valor que contrasta com assinaturas individuais da Starlink, vendidas por dezenas de libras esterlinas. As estimativas são projeções, mas ilustram o objetivo central: alcançar primeiro os lugares onde as redes terrestres e os satélites ainda não entregam um modelo economicamente vantajoso.
Rivalidade ou parceria entre HAPS e satélites?
Para especialistas, o avanço das HAPS tende a reforçar - e não necessariamente substituir - sistemas como Starlink e OneWeb. A expectativa é de uma arquitetura em camadas, combinando diferentes tecnologias conforme o cenário:
- fibra óptica e 4G/5G sustentando cidades e eixos econômicos
- HAPS cobrindo vazios rurais e localidades isoladas
- satélites garantindo alcance global, incluindo mar aberto e áreas extremamente remotas
O obstáculo mais sensível está na integração técnica e nas regras de uso do espectro. Plataformas estratosféricas e redes móveis/satélites podem operar nas mesmas faixas de frequência, o que exige coordenação para evitar interferências e queda de qualidade.
Regras, segurança e preocupações com uso indevido
Levar telecomunicações para a estratosfera envolve mais de um setor ao mesmo tempo - aviação, defesa, telecomunicações e proteção de dados. Autoridades nacionais precisam definir processos de certificação, monitoramento dos voos e responsabilidades em caso de falhas ou incidentes.
Também há inquietações ligadas à vigilância: uma plataforma capaz de cobrir grandes áreas poderia, em tese, transportar câmeras e sensores de alta resolução. Em países com baixa transparência institucional, esse tipo de capacidade pode ser direcionado ao monitoramento de populações, e não apenas à oferta de internet.
O impacto esperado para usuários e para países com baixa cobertura
Se os planos em desenvolvimento se confirmarem nos próximos anos, a internet estratosférica pode se tornar a principal porta de entrada digital para milhões de pessoas que hoje dependem de telecentros comunitários ou de um único ponto de Wi‑Fi em vilarejos e comunidades isoladas.
Para governos e operadoras, os usos mais citados incluem:
- conectar escolas rurais sem construir dezenas ou centenas de quilômetros de fibra
- acompanhar queimadas e desmatamento quase em tempo real em áreas remotas
- ampliar a telemedicina em comunidades distantes com vídeo em alta definição
- reforçar comunicações de emergência após enchentes, terremotos ou furacões
- oferecer conectividade temporária em grandes eventos fora de centros urbanos
Na ponta, a experiência tende a se parecer com a de uma rede móvel ou de internet via rádio: o celular ou roteador se conecta a uma antena local, que então se comunica com a plataforma na estratosfera. A mudança central estaria no custo de implantação e na velocidade para ativar serviço onde o mercado tradicional não chegou.
Termos essenciais: latência e banda não são a mesma coisa
O debate costuma misturar conceitos. Latência não é sinônimo de velocidade: mesmo com muitos megabits por segundo, uma conexão pode “responder” lentamente se o sinal precisa percorrer longas distâncias até o servidor.
Já a banda passante (capacidade disponível) indica quanto tráfego pode circular ao mesmo tempo. Em áreas densas, um feixe de satélite pode atender milhares de usuários, reduzindo a parcela de capacidade por pessoa. Plataformas estratosféricas, por estarem mais próximas e poderem direcionar cobertura com mais flexibilidade, tendem a aliviar essa disputa local por recursos.
O que pode acontecer nos próximos anos
Um caminho considerado plausível é o de governos lançarem programas nacionais de “céu conectado”, combinando incentivos fiscais, leilões de frequência e metas de cobertura social. Para o Brasil, a discussão se aproxima de desafios históricos de conectividade em áreas como a Amazônia e outras regiões de baixa densidade populacional, onde a infraestrutura terrestre é cara e a logística é complexa.
Outra hipótese é a entrada de grandes empresas de tecnologia como financiadoras ou parceiras de operadoras locais, bancando parte das plataformas em troca de expandir o acesso aos seus serviços em mercados ainda pouco explorados. O movimento poderia acelerar a inclusão digital, mas também levanta debates sobre concentração de poder, soberania de dados e regulação econômica.
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