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Após 220 anos de investigação, a verdade vem à tona sobre a identidade de um criminoso lendário graças à ciência

Cientista examinando crânio em laboratório, com dois esqueletos completos ao fundo, em ambiente bem iluminado.

Ciência desfaz troca de identidade em coleção universitária e revela qual esqueleto é, de fato, do bandido Schinderhannes

Durante mais de dois séculos, uma vitrine discreta da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, exibiu um “Schinderhannes” que não era quem o rótulo afirmava. Agora, uma investigação que combinou exames ósseos, análise de isótopos, DNA e pesquisa em documentos históricos concluiu que um erro de catalogação do século XIX trocou a identificação dos restos mortais ligados a dois criminosos famosos do início dos anos 1800.

A reviravolta: o esqueleto que por décadas esteve marcado como sendo de Christian Reinhard, conhecido como Schwarzer Jonas, foi apontado como o verdadeiro Johannes Bückler, o Schinderhannes - figura romantizada por parte do público na época e condenada por roubos, extorsões e homicídios. O estudo também trouxe uma consequência inesperada: o paradeiro do esqueleto de Schwarzer Jonas permanece desconhecido, e a outra ossada mantida em Heidelberg não corresponde geneticamente a nenhum dos dois.

De execução pública a “peça” anatômica: como começou a confusão

No começo do século XIX, Schinderhannes ganhou notoriedade no vale do Reno, visto por alguns como uma espécie de “Robin Hood” alemão, ainda que a Justiça o tratasse como criminoso violento. Ele foi executado na guilhotina em Mainz, em 21 de novembro de 1803, diante de cerca de 30 mil pessoas.

Logo após a morte, seu corpo foi destinado a médicos e anatomistas - um procedimento comum naquele período, quando condenados à morte eram frequentemente usados em estudos médicos. Dois anos depois, os esqueletos de Schinderhannes e de Christian Reinhard (Schwarzer Jonas) entraram para a coleção anatômica da Universidade de Heidelberg, onde passaram a ser analisados e expostos.

Com o passar das décadas, a organização do acervo se deteriorou: números de inventário foram alterados, etiquetas mudaram, partes do material foram desmontadas e crânios chegaram a ser enviados para outras cidades. O resultado foi uma troca de identidades que atravessou gerações de estudantes, pesquisadores e visitantes.

Investigação tratou o acervo como cena forense

Diante da incerteza histórica, um grupo coordenado pela anatomista Sara Doll, em Heidelberg, decidiu reavaliar os restos mortais com recursos típicos da ciência forense moderna, como se estivesse reabrindo um caso antigo.

Lesões antigas deram a primeira pista

O ponto de partida foram descrições históricas de ferimentos atribuídos a Schinderhannes. Registros do período relatavam que ele teria:

  • fraturado um braço após uma briga com um cúmplice;
  • quebrado uma perna em uma tentativa de fuga em Simmern.

Radiografias e avaliações detalhadas indicaram que apenas um dos esqueletos apresentava sinais compatíveis com essas fraturas antigas já cicatrizadas, sugerindo que a identificação exposta ao público poderia estar equivocada.

Os exames também apontaram que os dois indivíduos analisados eram homens jovens, com estatura próxima de 1,70 m, e apresentavam marcas ósseas associadas a estresse nutricional na infância - um indício compatível com condições de vida mais precárias comuns entre camadas pobres no início do século XIX.

Isótopos nos dentes apontaram origem geográfica e dieta

Em seguida, os cientistas recorreram à geoquímica. Amostras de ossos e dentes tiveram o colágeno extraído para medir isótopos de:

  • estrôncio (associado à geologia do local onde a pessoa cresceu),
  • carbono e nitrogênio (relacionados a dieta e condições de vida).

O padrão isotópico revelou dois perfis distintos. Um dos indivíduos apresentava assinatura compatível com solos calcários antigos do maciço de Hunsrück, no oeste da Alemanha - região ligada à origem de Schinderhannes. O outro mostrava sinais mais alinhados a áreas mais a leste, coerentes com documentos judiciais que associam Schwarzer Jonas à região de Berlim.

DNA confirmou: “Schwarzer Jonas” na vitrine era Schinderhannes

A etapa decisiva veio com a genética. A análise foi conduzida por uma equipe da Universidade de Innsbruck, coordenada pelo geneticista Walther Parson, que trabalhou com DNA mitocondrial (herdado pela linhagem materna) e DNA nuclear.

Para obter uma comparação confiável, os pesquisadores localizaram um descendente vivo da família de Schinderhannes pela linha materna, após extensa busca genealógica em registros civis e paroquiais. O DNA coletado da saliva desse parente foi confrontado com o material extraído dos ossos.

O resultado foi considerado estatisticamente conclusivo: o esqueleto rotulado por décadas como Schwarzer Jonas é, na realidade, o de Schinderhannes. De acordo com o estudo publicado em revista especializada, a probabilidade de o material pertencer a ele seria um bilhão de vezes maior do que a de pertencer a uma pessoa sem parentesco.

Traços físicos reconstituídos contradizem imagens antigas

Com os dados genéticos, os cientistas também estimaram características físicas do criminoso. A reconstrução genética sugere que Schinderhannes tinha:

  • olhos castanhos;
  • cabelos escuros;
  • pele clara.

Essa descrição entra em choque com gravuras do século XIX, que variavam entre representá-lo loiro ou com feições idealizadas, influenciadas pela visão “romântica” atribuída ao personagem.

O outro esqueleto continua sem identidade, e o de Jonas não foi localizado

A confirmação de que o “Jonas” exposto era Schinderhannes abriu um novo problema: o esqueleto verdadeiro de Schwarzer Jonas ainda não foi encontrado.

Além disso, o indivíduo que permanece em Heidelberg não corresponde - pelos dados de isótopos, arquivos e DNA - a nenhum dos dois criminosos. Por enquanto, trata-se de uma ossada sem nome, possivelmente envolvida em algum dos vários episódios de reorganização, troca de etiquetas, envio de peças a outras coleções ou empréstimos não registrados ao longo do século XIX.

O que o caso mostra sobre identificação forense e memória histórica

A reidentificação dos restos mortais funcionou como um exemplo didático de como diferentes áreas podem convergir para responder a uma pergunta central: quem era a pessoa por trás de um conjunto de ossos? No caso de Heidelberg, os métodos se complementaram:

Método O que pode indicar Papel na investigação
Análise óssea e radiológica idade, sexo, altura, fraturas e doenças apontou lesões compatíveis com relatos históricos
Isótopos (estrôncio, carbono, nitrogênio) origem regional, dieta e mobilidade relacionou um indivíduo ao Hunsrück e outro a áreas do leste alemão
DNA mitocondrial e nuclear parentesco e traços físicos confirmou vínculo com descendente materno de Schinderhannes
Pesquisa histórica contexto, ferimentos e trajetória orientou hipóteses e interpretou os achados biológicos

Embora o episódio envolva um acervo universitário europeu, a lógica se aplica a situações atuais, inclusive em países como o Brasil, onde a identificação de restos mortais pode depender da combinação de perícia genética, dados químicos e documentação para esclarecer casos antigos, revisar erros e devolver nomes a pessoas esquecidas.

Termos-chave: o que são isótopos e DNA mitocondrial

Dois conceitos ajudam a entender por que a investigação foi possível mesmo após cerca de 200 anos:

  • Isótopos: versões de um mesmo elemento químico com massas diferentes. O estrôncio, por exemplo, varia conforme o solo e as rochas de cada região; essa marca entra na cadeia alimentar e fica registrada em dentes e ossos, ajudando a estimar onde alguém passou a infância.
  • DNA mitocondrial: material genético presente em grande quantidade nas células e transmitido quase sempre pela mãe. Em restos antigos, ele costuma resistir melhor do que o DNA nuclear, o que o torna especialmente útil para comparar linhagens maternas com parentes vivos.

Debate ético: exibir restos humanos ainda faz sentido?

Além de corrigir uma identificação histórica, o caso reacende um tema sensível: como instituições devem lidar com restos mortais mantidos em vitrines e coleções científicas. A pergunta envolve quem decide sobre exposição pública, e em que momento o interesse acadêmico deve ser ponderado com considerações éticas, culturais ou religiosas - incluindo pedidos de sepultamento digno por descendentes ou grupos afetados.

Entre a curiosidade científica e o respeito aos mortos, a revisão de práticas herdadas de séculos passados volta ao centro do debate.

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