A garota na mesa do café ao meu lado fecha os olhos antes de dar um gole no seu latte de “moon milk” de US$ 14. Ela está com o diário aberto, um scrunchie de seda no pulso e uma ecobag que diz “Self Care Or No Care”. Ao redor dela, pessoas se curvam sobre laptops, atravessando apressadas o intervalo do almoço, mastigando rápido demais. Ela fica ali, quase como uma santa, numa nuvem de palo santo e espuma de aveia, totalmente absorvida no ritual de cuidar de si mesma.
Eu a vejo inclinar o celular com delicadeza para pegar o vapor em um story do Instagram.
Na tela, vai parecer presença.
A dois metros de distância, parece muito mais uma performance.
Quando o “autocuidado” silenciosamente deixa de ser cuidado
Autocuidado costumava ser algo discreto e quase invisível. Beber água, dormir, ligar para sua mãe, dar uma caminhada, tirar um dia de folga quando seu corpo grita com você. Nada glamouroso, nada fotogênico. Só sobrevivência com um pouco de gentileza.
Agora vem com velas de marca, retiros de US$ 300 e uma rotina de bem-estar que parece um trabalho de meio período. Você não apenas descansa, você “biohackeia”. Você não apenas come, você “abastece”.
As palavras mudaram - mas a energia por trás delas também.
Role qualquer feed e você vai ver a mesma coreografia. Yoga aéreo ao nascer do sol. Banhos de gelo em câmera lenta. A estética da “soft life” em que a decisão mais difícil é qual tigela de matcha pedir.
Tem a mulher anunciando que está “protegendo a própria paz” ao cortar qualquer um que não vibra na frequência dela - incluindo a irmã exausta que precisa de alguém para cuidar das crianças. Tem o cara postando sobre “limites de saúde mental” enquanto dá ghosting nos amigos sempre que eles têm um problema real que ele não consegue resolver em três mensagens.
Todo mundo está cuidando de si com tanta intensidade que sobra pouquíssimo espaço para qualquer outra pessoa.
É aqui que a linguagem fica escorregadia. Porque quem vai argumentar contra saúde mental, certo? Contra terapia, ou descanso, ou tirar um tempo quando você está no limite. Isso é real, necessário e às vezes salva vidas.
A virada acontece quando o autocuidado deixa de ser sobre reabastecer seu tanque para você conseguir estar presente na vida, e passa a ser uma desculpa para evitar as partes bagunçadas e exigentes de ser humano com outros humanos. Quando “eu preciso de um tempo para mim” vira um escudo educado para “suas necessidades são um incômodo”.
Nesse ponto, bem-estar não é cura. É um álibi lindamente perfumado.
Como cuidar de si sem desaparecer dentro de si
Existe um teste simples que você pode fazer e que não exige cristais nem coach. Antes de dizer sim para um hábito de bem-estar ou não para outra pessoa, pergunte: “Isso vai me deixar mais presente ou mais ausente?”
Um banho que te deixa descomprimir depois de uma semana brutal para você conseguir ser mais gentil com seu parceiro? Presença.
Um banho que “precisa ser um tempo sagrado” toda noite, sem exceção, não importa o quê - mesmo se seu filho está doente e sua amiga acabou de levar um pé na bunda e precisa conversar? Isso não é cuidado, é retirada.
Uma pergunta, feita com honestidade, corta muito do ruído.
A armadilha em que muitos de nós caímos é confundir limites com barricadas. Estabelecer um limite é dizer: “Posso falar hoje à noite, mas não por uma hora, estou exausta.” Construir uma barricada é: “Eu não faço conversas emocionais depois das 18h por causa da minha rotina de autocuidado.”
Um protege sua energia para que você ainda consiga dar. O outro protege seu conforto para que você nunca precise se esticar.
Vamos ser sinceros: ninguém faz isso todos os dias, aconteça o que acontecer, não importa o que sugira aquele reel de rotina matinal. A gente flexibiliza, a gente dobra, a gente cancela o yoga às vezes porque um amigo está chorando no chão da cozinha. Isso não é uma falha do autocuidado. Isso é o ponto dele.
A gente já passou por isso: aquele momento em que você está prestes a colocar o celular no modo avião para sua sagrada “hora do bem-estar” e alguém que você ama te liga em evidente sofrimento - e você sente, por um segundo, irritação por estarem interrompendo seu ritual.
- Perceba a irritação. Não a envergonhe, não a glorifique. Só enxergue.
- Pergunte a si mesma: “Meu autocuidado está me ajudando a amar melhor, ou está me deixando mais difícil de alcançar?”
- Decida conscientemente: “Agora, o que importa mais - meu plano ou esta pessoa?”
- Alterne: em alguns dias você escolhe o banho, em outros dias você escolhe a ligação. Com o tempo, o padrão diz quem você é.
- Autocuidado que nunca te custa nenhum conforto geralmente não é cuidado. É branding de estilo de vida.
Da cura solo à responsabilidade compartilhada
Existe uma versão mais silenciosa do bem-estar que não brilha tanto no grid, mas é muito mais humana. Fazer uma sopa para um amigo e ficar para comer uma tigela com ele. Tomar seus remédios e lembrar seu colega de casa de tomar os dele. Dizer: “Eu não consigo consertar isso para você, mas posso ficar aqui enquanto você chora.”
Esse tipo de cuidado não te apaga. Ele te inclui. Você dorme, você descansa, você diz não às vezes - e também deixa sua vida ser interrompida pela vida de outras pessoas.
A verdade desconfortável é que algumas tendências de bem-estar encaixam bem demais na obsessão da nossa cultura com sucesso individual. Um mundo em que todo mundo é um “projeto de auto-otimização” é ótimo para vender produtos, mas bem brutal quando sua mãe fica doente ou seu amigo tem uma recaída.
Responsabilidade comunitária é lenta, nada glamourosa e impossível de monetizar. Ninguém viraliza por “segurei o bebê da minha vizinha para ela poder dormir”. Ainda assim, é esse tipo de solidariedade comum que mantém as pessoas à tona.
A pergunta não é “Eu deveria praticar autocuidado?” A pergunta é: “Quem se beneficia da minha versão de autocuidado - só eu, ou também as pessoas que eu digo amar?”
Fique com isso por um segundo. Não como acusação, mais como um espelho.
Se sua vida de bem-estar significa que você nunca ajuda ninguém a mudar, nunca visita ninguém no hospital, nunca atende uma ligação às 2 da manhã, nunca sacrifica um fim de semana pela crise de um amigo, isso é dado. Não significa que você é um monstro. Significa que o equilíbrio está errado.
Cuidado real tem atrito. Às vezes te deixa cansada. Também te deixa mais macia, mais acessível, menos apavorada com as necessidades dos outros. O paradoxo é que muitas vezes a gente se sente melhor quando para de orbitar a si mesma o tempo todo.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Verifique seu motivo | Pergunte se uma escolha de autocuidado te deixa mais presente ou mais ausente nos seus relacionamentos | Ajuda a perceber quando o “bem-estar” está virando evasão |
| Limites vs. barricadas | Proteja energia sem usar “autocuidado” como escudo contra todas as exigências | Permite descansar sem se isolar aos poucos |
| Escolha cuidado compartilhado | Misture práticas solo com atos de apoio aos outros | Constrói uma vida em que você se sente cuidada e necessária, não apenas otimizada |
FAQ:
- Autocuidado é egoísta por definição? De jeito nenhum. Autocuidado vira egoísmo quando é usado principalmente para fugir de responsabilidade ou empatia, em vez de te restaurar para que você viva e se relacione de forma mais plena.
- Como eu sei se fui longe demais no bem-estar? Repare em padrões: os relacionamentos estão afinando? As pessoas dizem que você é “difícil de encontrar”? Você se irrita quando os outros precisam de você? Esses são sinais de alerta.
- E se eu estiver em burnout e genuinamente não tiver nada para dar? Então priorizar a si mesma não é egoísmo, é sobrevivência. A chave é ser honesta sobre a fase em que você está e permanecer aberta a se reconectar quando tiver capacidade de novo.
- Posso colocar limites fortes sem me sentir culpada? Sim. Diga o que você consegue oferecer em vez de apenas dizer não. “Não consigo falar hoje à noite, mas posso te ligar amanhã de manhã” respeita seus limites e a necessidade da outra pessoa.
- Eu tenho que abrir mão das minhas rotinas para ser menos egoísta? Não. Mantenha as rotinas que realmente ajudam seu corpo e sua mente e, com gentileza, solte aquelas que servem mais à sua imagem ou te mantêm distante de conexão real.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário